segunda-feira, 19 de janeiro de 2009
Amarela
Teu leite em minhas mãos
De café aguado
Tuas turquesas oculares
Em minhas esferas de âmbar
Par perfeito.
Branca, branca, alva
No contraste de nós dois
Aquarela.
Todas as tuas cores
Nenhuma cor em mim
Complementos.
Clara, clara, nuvem
Em meu céu tempestuoso
Inquieto.
Tua calmaria dia claro
Meus ciclones irrequietos
Estações.
Alva, clara, nuvem branca
Serena garça vôo solto
Ninho.
Tu planas sobre mim
Espero teu pouso
Vida.
Recorrência
No tema recorrente
A todos os poetas.
Forceja contra o óbvio,
Briga contra o que foi dito,
Redito, bento e maldito.
Não há poeta que não fale
De amor, paixão, dor e lua,
Que não caia na armadilha.
Quem se arriscar a escrever
Não resiste ao tema pronto,
Cede um dia ao lugar-comum.
Dura missão de tentar
Não repetir o que leu
Ou não leu, mas já existe.
O poeta resiste e não mais poder
Até dar-se por vencido
E votar a calçadas já pisadas.
Até Logo
E o cheiro da pele.
Olhei o fundo dos olhos
E as tetas que me olhavam.
Beijei todos os lábios
E o vão livre entre as costas.
Dias se confundiram com noites,
Noites viraram manhãs
Num ir e vir de maré,
Forte e oloroso oceano
Entre dois náufragos
Agarrados numa só vida.
Senti o afago dos dedos
E o calor da boca molhada.
Ardi em fogo bando,
Assei em chama brava.
Me afoguei em saliva
E nadei em seu gozo.
Até logo dorido
Com gosto de muito mais.
Festança no Terreiro
Ouço vozes madrugada a dentro
Sax, flautas e trombones
Nos acordes desmedidos.
Rumba, polca, jazz e blues
Num sambinha sincopado
Reco-reco e violino
Vilvaldi, Bach e Caymmi
Rasta-pé levanta poeria
Capoeira levanta o pé
Tom suspenso e destemperado
Escala natural e mansa sacode
A casa espanta o sono
Disparo a dança no compasso
Enrosco a perna na cintura
No ritmo, dou um laço
Deslizo o braço, chego perto
Acende o olho do gato
Lundum, coco e tango
Martelo alagoano, valsa e chula
Melodia, Chico e Armstrong
Suor empapando a farda
Rodopio no salão
Saia e castanholas, flamenco
Rubor de faces e de trajes
Baleiro, Bosco e Aznavour
Casais em roda, roda, rodam
Cateretê e ciranda
Passo a passo
Xote, pasodoble e rumba
A manhã visita a roda
Mambo, merengue e milonga
Transforma o encanto em desejo
Bossa, forró e habanera
O silêncio vigia a festa
Carimbó, síriá e tambor de crioula
Chega o cansaço, marca a face
Be bop, swing e bolero
Traz o beijo.
O sopro arrepia a pele
Sinto o cheiro de café
E ouço o canto do galo.
Construção
E o predicado surgiu.
Os adjetivos abundam
Desde antes das letras.
Substantivos concretos
De arame a argamassa
Estruturam a construção.
Fez-se o verso
E a estrofe surgiu
Confundindo-se em fonemas
E sílabas que se confundem.
Advérbios, ênclises e mesóclises
Na salada de signos.
Gramática complicada
Sem lógica matemática.
Fez-se o vício
De escrever por segundos.
Alfabeto sem alfa ou beta
Numa babel gráfica.
Pleonasmos redundantes,
Cacófatos incômodos
Nos rabiscos em portas de banheiros
Alguns direcionados ao vaso:
Poesias bêbadas.
Adoniran
Falar é chato
Brincar de falar é bom
Adoro brincar
Falar errado é brincadeira
Brincar é bom
Falar certo é regra
Brincadeira é transgressão
Transgredir é bom
Adoro falar certo
E brincar de falar errado
Brincar de falar certo é chato
Falar certo é gramática
Falar errado é brincadeira
Gramática é bom e chato
Falar errado é brincadeira
Ouvir o errado dói
Ouvir errado é chato
Escrever errado é errado
Falar errado é divertido
Diversão é bom
Dói ouvir errado
Gramática é certo
Errar a gramática dói
É preciso saber falar errado
Já ensinava Adoniran
Adoniran é bom
A Lua e Ela
Até feriu os olhos,
Doeu nos ossos,
Suou nas mãos,
Abriu fissura,
Botou antolhos,
Me deixou moço,
Me tirou do chão.
Aquela beleza toda
Me levou ao firmamento,
Botou quebranto,
Derreteu a pedra
Que me incomoda
O peito a dentro,
Refez o encanto
Que agora medra.
A lua de sentinela
Faz da noite dia
Dá-se nua na janela
E se espalha pelo piso.
Vejo na lua
Ela, minha amarela,
Brilho que arrepia
Com a cara num sorriso.
Autoridade dos Becos
Tinha cabeça de nada dentro
Carregava no colo e nas golas
Flores de papel crepon e broches improvisados.
Se tinha família, nem ele sabia
Não tinha nem a si próprio
Que fugiu de dentro de si com a cigana
Que fugiu de madrugada na garupa do mascate.
Paciência tornou-se senhor dos becos
comendo no simidão fumando por se de graça
Bebendo água de chafariz e pensando no não pensar,
Era o prefeito do nada, delegado de ninguém,
Baterista sem tambor.
Sem água
Sem pão
Sem carinho
Se me quiseres morto
Sujo
Fedorento
Podre
Se me atirares pedras
Ou paralelepípedos
E me enterrares
Se me afogares
Ou me queimares vivo
Se te despedires
Quando te chamo
E nem ligares
Se me deixares nu
Com frio
Ou torrando ao sol
Se me atirares aos leões
Ou me sangrares
Com a lança dos gladiadores
De vingança
Não te esquecerei
E viverei do amor
Que sinto por ti.
Luar no Sertão
O céu me sorri
Com lábios de quarto crescente
Sorriso amarelo e banguela.
Na face abobadada
Sardas brilhantes e sem fim.
A noite passa,
As horas anda
me o sorriso do céu levanta
e adormece sob o lençol amarelo
do fim da madrugada.
Bocagiana
Papel, tinta, caneta,
Moela, cloaca, papo,
Zarolho, vesgo, perneta,
Cobra, perereca, sapo,
Asma, azia, enxaqueca,
Bonito, charmoso, guapo,
Azul, amarela, preta,
Pipeta, béquer, proveta,
Toalha, talher, guardanapo,
Ripa, madeira, vareta.
Mãos Vazias
Tem uma poesia inacabada
Que acrescenta um verso a cada dia.
Na outra mão
Uma página em branco
E se mais mãos tivesse
Para outras poesias serem escritas...
Veia poética
É do homem que faz poesias
Com a ponta dos dedos
Como o poeta que se foi voando
Com suas asas portáteis
Escrever nas nuvens
Suas poesias celestiais.
Morrer de amor.
Mão é para um eu,
Somente para quem viveu de amor
Cantou o amor
Escreveu o amor
E perdeu um grande amor.
O poeta foi apaixonar os anjos
Porque na Terra
Não havia mais quem não o amasse.
O maior poeta vivo
Está fazendo vestibular
Para maior poeta do Céu.
Urbano
Faces
Faces luzidias dioturnas
Nas paredes grafitadas
De meia noite insone.
Flores cadavéricas
Nos pés da estátua
Em homenagem esquecida
De séculos sem tempo.
Ruas da cidade
Sem razões quadráticas
Na visão do bêbado multiforme.
Cinzas
Tintas
Merda
Mal cheiro de cavalos
Suados e maltratados
Por vielas iluminadas de neônio
Sob a Lua descorada
De cidade esquecida.
Batinas
Sexo
Na sacristia.
Revistas imorais
Cine privê
E sala lotada
Com televisão mentirosa.
Aventura
e escalei a parede de suas pernas
numa subida íngreme e sensual
explorando cada recanto
de suas montanhas e vales.
Erguia-me instintivamente
em busca do que nunca vira,
mas sabia onde encontrar.
Sem cansaço e sem pressa
segui na jornada,
a boca secade ânsia.
De repente
sua planície vertical até então
com vagar foi deitando
e eu junto.
Após seu bosque de touceiras
tecidas desarrumadamente
viajei em busca das montanhas gêmeas
e, no cânion entre elas,
não soube que lado seguir.
Meu aríete já explorava a caverna
por ele desconhecido
(missão pouco ortodoxa para um aríete)
e nos deliciávamo
sem beijo demorado e úmido
com sabor de sexo.
Casual
Vejo a flor e adivinho a borboleta
Ouço a água e sei do peixe
Pela buzina sei do atropelamento
Nada de propósito.
Sinto a brisa e pressinto a chuva
Olho a vaca e ante-saboreio a picanha
Pelo cacaueiro sei o gosto do chocolate
Na criança já vejo o chato futuro
Sem querer, por acaso.
Pela pasta sei da propina
Pelo terno sei do corrupto
Pelo espirro sei do vírus
Pelo sapato sei da puta
Totalmente acidental.
Por teus olhos antecipo a dureza
Tuas costas me contam da maciez
Olho tuas coxas e prevejo a noite
Teu batom me conta do teu beijo
Na tua mão fechada o adeus se apronta.
Perda Maior
A sombra da névoa da favela
Onde meninas estupradas
Fazem tricô com seus traumas
E mães aflitas e conformadas
Choram a dor do hímem perdido,
Mais valioso legado da filha,
Fisicamente uma película,
Na vida a própria vida.
Na brasa a verdadeira dor
De ter um assassino sobre o corpo
E um rasgar entre as pernas
Causando saltos inexplicáveis
Sob o seio duro,
Sem excitação, mas pavor
De encarar os desconhecidos:
O sexo e o homem.
Na cinza o passado remoto
Onde cirandas eram a brincadeira
Hoje proibida pelos nervos arrebentados,
A vergonha da perda
Do que sequer sabia existir.
O bandido está à solta
E as crianças nas ruas,
Vulneráveis ante a insanidade
Do endiabrado marginal,
Pênis infeliz na luta com a vítima.
Anjo da Guarda
No meio da minha cara
Me deixa pensando
No depois de agora.
Quero te amar até morrer
E depois da morte
Velar teus dias
Como anjo-da-guarda.
Pedra
fria, lápide rústica
não responde à batida.
Bato com o peito na pedra
e a pedra entra no peito,
quartzo perene,
insensível para novos amores.
Bato a pedra do meu peito
noutra pedra
e o som do choque
me torna de pedra,
pedra mole, talco,
arrebentando de querências.
Sem Pé ou Cabeça
Em outro túnel
E a indiferença de cada olhar.
De todas as direções
Um vento otimista
Me envolve como emplastro.
Uma mulher mal vestida
- ou pouco vestida,questão de opinião -
Me sorri na sua loucura
E me manda um beijo doido,
Beijo em quatro dedos
Que o vento desvia
Para o careca ao lado.
Meu otimismo
Não será abalado
Pela insanidade alheia.
Ela
Ou a que me enganou,
Quero a diferente delas.
A que me tire a trava,
A cica de fruta verde,
Que tire o mofo da alma.
Quero que aja como dama
E me ame como vadia,
A que ralhe por nada
E ajude a acertar.
Quero a que não faça drama
E ria dos meus erros.
Uma que seja menina de tranças
E a senhora de coque,
A enfermeira diligente
E a magoada carente,
A que resolve tudo
E a que pede ajuda.
Molecagem
Para a latrina do quartel
Cheia de sarapatel
De porco mal cozido.
Nota tua bota
Melada de bosta
De carneiro urbano
Que fabrica bolinhas de gude
Com que a mãe não te deixa jogar.
Pega uma refrega
Com o dono da venda
E xinga o molenga
Que não pode contigo
Nem com teu umbigo.
Cada cobra tem seu rabo
Para tu apedrejares
Não te chateies
Se errar uma ou outra,
Moleque do estilingue,
Das fechaduras das moças,
Das bombinhas na igreja,
Da lata no rabo do gato,
Do passarinho balado,
Do vaso Ming quebrado
E do olho roxo de soco.
Indelével
E na meiguice de sua voz
Perco os sentidos
E saio de mim
Para lhe velar do espaço
Inviolável de nós dois.
Abro os braços
Na esperança de depois,
Não lhe encontro
E me fecho no mundo
Onde me tranco com você,
Sem você.
Com medo de me perder
E virar um vagamundo
Em meu claustro
Procuro suas mãos
Para me guiar.
Na falta de ar
Respiro pelas suas narinas,
Lhe escrevo rimas
Para não me esquecer
De como você é poesia.
Lhe pinto na tela
Lhe retrato
Na palma da mão
Para quando perder a visão
Ter o tato de sua imagem
Gravado,Tatuado na eternidade.
Pegadas
Não vi meus olhos
Quando te olhei;
Quando me achei
Estava perdido em ti.
Antinomias
Aquele que não é segredo nem cria mistério
protege a verdade. É signo
revela e faz da justiça seu império.
Antinomias da modernidade desiludem a razão
Apagam-se as luzes na alameda das idéias
Racionalistas às cegas torcem, cortam e combinam sua álgebra em equação,
Lógica atormentada pela entropia trazida na corvéia de tristeza.
O elétron - ironia da relatividade radioativa - que mata e cura
A viagem à lua encara envergonhada a mutação do vírus
A vacina e o mapa genético tropeçam na fome, agonia viva do Quênia
O papelão da fábrica usado em cartazes contra o desmatamento
O líder holístico viaja de férias para as Bahamas
Madre Teresa, a santa, defende a dor com expiação dos pecados
Tira-se o óleo de onde deveria jorrar água
As avenidas lotadas e os palácios endinheirados contra a poluição
Servindo as mesas, o miserável sem pão
Quem jurou por Hipócrates não atende sem recompensa
O cérebro eletrônico aproxima corações e planeja obombardeio
O caça a jato engatinha no porta-aviões em plena seca nordestina
À mesma luz que mata o tumor programa-se para matar o tumoroso
Da Vinci quis voar em busca de neve, mas o que cai dos aviões são bombas
Crianças pulam amarelinha entre minas terrestres e perdem pernas ou a vida
Endeusa-se o negro desportista, e manda-se o negro cidadãoao final da fila
Bate-se na bigorna e na ferradura sem distinção
Corre-se para o abraço e em fuga
Declara-se amor e guerra com as mesmas letras
Escrevem-se poemas e bilhetes de resgate
Declaram-se manifestos literários e manifestos terroristas
Cantam-se cirandas e palavras de ordem
Anestesia-se a dor e a provoca com mesma facilidade
Acorrenta-se o navio de mantimentos e agrilhoam-se os inimigos
Entregam-se boas novas e antrax pelo correio
Cria-se Alícia pelas mãos de Adrià - combina-se alimentação com ciência - ingredientes de bomba na comida
E a tentativa para distinguir a verdade do erro não afasta a ficção
Cria ilusão de certeza absoluta - ignorância total
A Certeza - Resposta
Que encobria a carapaça;
O vento levou no vento
O que a alma escondia;
A verve trouxe aos olhos
O que o peito não via;
A palavra trouxe o furor
Que o corpo já não sentia;
A imagem trouxe a certeza
De que alma gêmea existe;
O amor deu ao futuro
O sonho de ser um dia.
Bom
Vindo do nada.
Andar sem pés no chão
Como se em nuvens pisasse.
Sofreguidão de vontades
E as vontades se misturam ao todo.
Raízes fincadas em outras terras,
Férteis campos sem cercas.
Olhos nos olhos da alma
Calma nos olhos da cara.
Sorriso tatuado sob o nariz
Que só se abaixa para o beijo.
Lábios, lúdicos passatempos,
Passeios por outros lábios ávidos.
Entrelaçamento de dedos
Emaranhados em pêlos.
Ancestral
Vago fundo no leito da tua história, minha sina.
Retiro meu olhar do teu
E vejo o olhar dele em ti.
Num mundo sem letras – a miragem
Brilha, o nome de teu pai.
Vejo minha senha,
Tua carne é minha travessia
Entre o-que-é e o-que-não-é. Ele!
Eis o teu amigo. Pele, cor e fogo.
Meu caboclo do pescoço grosso!
Tua coragem é meu sorriso.
Abro e fecho tuas cortinas.
Minha pálpebra é teu abrigo.
Tateio meu amanhã na tua fronteira
– memória e esquecimento.
Voltamos nossas costas para o futuro.
Meu medo vibra.
Tua mão possui a minha no real da terra-a-terra
Caminhamos para o começo.
Hesito no vento.
Teu calor movimenta meu ar, nossa tarde estremece
Sob as bênçãos do teu passado.
E a razão vacila.
Se agarro teu chão, tropeço no meu enigma
Aninhado na ilha arcaica, solo rústico dos meus xamãs.
Meu culto é teu mito
Esticado na linha da ancestral materna ,
Minha avó e sua filha, minha mãe, desatam o nó.
Sou da terra que fizeste tua no vigor da juventude
Nas ruas da tua Canaã, sou a estranha
Destas roças onde laças nós dois que nos sabemos sós.
Ele nos vela.
Nó Cego
No toque de nós dois.
Acimentados sins e nãos
No agora e no depois.
Intrincado nó de dedos
Sob luz de luas e sóis.
Balé de ir e vir de corpos
Um sou eu, o outro sois.
Univeso binário
Eu e tu somos nós.
Chico
Áspera por fazer
Roçar meu rosto
No beijo de boa noite.
Sinto o cheiro do seu cigarro
No seu hálito gostoso
Do até amanhã,
O cheiro da sua boca.
Lembro a infância distante
Quando lhe via chegar
Montado na bicicleta branca,
Cansado, todo de verde.
Lembro das mãos gordas
Fazendo afago grosseiro
Em harmonia com sua voz,
Ralhando num carinho grosso.
Saudade da casinha
Cheia de todos nós
Esperando a luz se apagar
E ele acendendo o lampião.
Lembro dos lençóis brancos
Que nos escondiam no sono
Enquanto ele, sozinho,
Caminhava pela casa.
Lembro da cadeira de balanço,
As outras de espaguete plástico
Onde se sentava à noite
Ouvindo rádio ou estrelas.
Lembro das noites sem luz
E sua voz em serenata
Animando a lua e meus sonhos.
Meu pai, amor eterno,
Que saudade das conversas
Nunca trocadas, plenas,
Lotadas de carinho.
Seus olhos de lágrimas
De tanto bem-querer que tem
No seu silêncio de carícia
Por mim e pelos nossos.
Sobre Minas
É fazenda.
Onde se olha Minas
Vê-se roça e chaminés.
Minas não tem floresta,
Mas matinho pequeno
Com aroma de tempero e chá,
De remedinho de vó.
Minas tem gostinho de leite
E cheirinho de capim
No sobe e desce de suas serras.
Não seria Minas se fosse plana.
Leite e verde
É a Minas irregular.
Sampaulo
Ficada eterna entre mesas e livros,
Entre amigos e avenidas,
Sobre prédios e em subterrâneos
Com a cidade em volta.
Mil sotaques,
Mil faces por segundo.
Todo o mundo numa rua,
Ruas para todo o mundo.
Veias e artérias de betume
Espalhando-se como pernas de gigantesca aranha,
Vasos entupidos de glóbulos parados.
Vi-me nas vitrines que não me viam,
Coloquei-me nas calçadas que me calçavam,
Amei na cama que me esperava,
Beijei a boca que desejei.
Quatro foram poucos
Quando mais dias queria.
Tantos os abraços
E mais os desejados, nenhum, porém, esquecido.
Não me eternizei em seus prédios,
As construções se eternizaram em mim.
Não finquei raízes ali,
Suas raízes me tomam.
Não deixei meu sotaque em seus ouvidos,
Ouço seus erres e esses.
Minha cara não ficou em suas retinas,
Seus rostos estão nas minhas.
Desta cidade trago meu tesouro,
Empobreço São Paulo
Trazendo a mulher que amo
E o coração dos amigos deixados.
Sede e Água
Escorre lama multicor pelos cantos
Em minha baba hidrofóbica
Solto-me absurdo e completo aqualouco
Na piscina revolta dos olhos horizontais
Que fitam absortos em movimentos elásticos
De estilingue em mãos de bêbado e sonolento amante
Rasgo as noites de seda sobre o colchão manchado
De outras noites e dias ininterruptos
Onde suores e demais fluidos se espalhavam
Segunda piscina corpórea sem fundo
Nos ruídos silenciosos dos móveis pela madrugada
Ouço os suspiros com timbre de aflição e me confundo:
Não são dores que levitam esse corpo em curva de abóboda
Reverberações roucas de estertores incontidos
Abre-se no céu o buraco dourado que mata a madrugada
Me encontrando estafado e morto, sorriso idiota e pernas bambas
Ao lado do arco dantes teso, ora relaxado
De alva madeira e louras penas desarrumadas.
Louca
Cambalhotas ensandecidas de golfinho ferido
Louca me enlouquece, põe-me a ver navios no ar
A nadar de costas em mar bravio
Fere as portas com unhas de gata louca
E dilacera minha aura com mordidas de cadela
Atira-se de cabeça contra o muro
Reclamando da moleza dos tijolos
Arranca-me com os dentes incisivos
O que resta do miocárdio gasto pelo tempo
Sela minha boca com os joelhos sujos de poeira
Retirada de minhas solas maltrapilhas
Fio a fio me descabela a mordidas
E raspa a careca sobrante com o tamanco gasto
Lunática me manda ao inferno
Infernal me leva às nuvens.
Destino
Dá-me a pobreza eterna,
Tira de mim a saúde e a fé,
Sede duro e me nega a fortuna,
Faz-me cruel,
Tira-me o siso e a inteligência,
Dá-me dores lancinantes,
Leva-me os amigos e os favores,
Deixa-me ao relento em noites frias, destino.
Faz de mim um ermitão
Em terra sem vizinhos
Sem roupa e sem pão,
Tira-me a visão, o olfato e tato,
Leva de mim o que tenho e sonhos,
Deixa-me nu sob sol inclemente,
Seca-me a boca e leva a água, destino.
Estou em tuas mãos,
Mas dá-me a alegria
De tê-la e a seu afeto infindo,
Deixa eu contar com seu afago
Em todas as dores que me reservas.
Deixa-me, destino, a mulher que amo
E não a fere.
Expedição
Escorreu pelo pescoço
Seiva escorrendo pelo tronco
Mãos nas costas
Outras mãos em outras costas
Desceu pela nuca
Auréolas rosadas, hipercolor,
A mesma língua fervendo.
Outra língua em corpo oposto.
Estala alto o dique
Que continha a ânsia.
Frenesi montanha abaixo
Alagando vale que não dorme
Gigante rijo e sedento
Arrombam-se grotas
Soterram furnas invadidas.
Na batalha suores se misturam
Líquidos e vapores de cheiros.
Fogos de artifício.
Corrente
Peixe encantado
No canto um canto
Encanto no canto
Um conto no canto do conto
Encantamento em forma de conto
Conto em forma de canto
Encontro no canto o conto
Desencontro
Peixe no canto
Conto písceo
Encontro entre canto e conto
Desencanto entre peixe e contra
No Tom do Zé a peixa
Encantada e deixada no canto
Sem voz de desencontro
Viva peixa de aquário rachado
Largado no canto em que me encontro
Entre o quanto e o desconto
Desconto é desfazer o conto
Desencanto é desfazer o canto
Reencanto é recantar o canto
Reencontro é recontar o conto
Adicionando pontos
Peixe n’água de desencanto
Viva peixa contra a maré
Do aquário rachado
Fazendo água no canto
Em que se escala o conto
O canto no conto do canto
Canto de acalanto
Conto um quebranto
Apronto um conto
E aponto por enquanto
Apenas o pai-de-santo pronto a entrar
Como celacanto nas águas do conto
Peixes em feixes sacrossantos
No horizonte
Madeixa entre seixos da fonte
Donde levanto e pronto
Bahias
Na segunda te descobri
Sob a primeira santa cruz.
Te perdi no Mucuri
Reencontrei em Pau Brasil
Entre patos e pataxós,
Prima mata e primos bichos.
De mãos dadas te levo rumo a Minas,
Desviei para o frio do planalto
Te carregando sobre a tropa.
Abrimos vilas e cidades,
Sob árvores plantamos cacau,
Colhemos frutos, papamos jacas,
Carinhanha nos picou sobre amêndoas.
Subimos ao norte, caímos na primeira.
II
A primeira veio depois da segunda:
Terra do salvador,
Negra vestida de branco,
Turbante colorido.
Te levei aos trezentos altares,
Aprendi e ensinei outros sotaques,
Ofusquei o farol com o brilho
Das lentes dos teus olhos claros.
Da de cima vi a de baixo,
Forte e mercado de negros,
Púlpito de templo e tronco de escravos;
Água verde aprisionada
Por recôncavo festivo,
Praias recortadas por edifícios.
Te carreguei, minha loura,
Pelos braços e pernas,
Entre chaminés de pó negro
E peles pretas de fuligem e Áfricas.
Saí da primeira, suas ilhas,
Tambores, turistas e comidas.
III
A terceira foi a terceira visita,
Calor no quengo, calor nos abraços,
Falar de outras gentes
Tão próximas e diferentes da primeira.
Cocada de maracujá
Vira rapadura de laranja;
Abará é tapioca,
Abóbora é jerimum,
Mãinha é mãe e mamãe.
Ainda recende a bosta de cavalos
As pedras seculares das ruas,
Possível se ver umbu no pé
E não nas latas enferrujadas da feira;
Padre, juiz e delegado
São deus, autoridade e temor.
A terceira, em sua secura,
Traz a pureza e as dores de antanho.
IV
A quarta, onde te deixei,
É de lá e quase lá,
Tão longe de lá está.
Não parece com a mãe,
Não tem pai.
A quarta o Chico corta
Com suas águas vermelhas,
Vai de Juazeiro a Conquista,
Cria uvas e bodes.
Terra que tudo tem e nada dá
Para os rubros de barro e sol
E os brancos, olhos azuis,
De sul e soja, Pampa e Pará.
A quarta ainda não é,
Faz-se no arado.
Rasga-se nos papéis dos palácios,
Sai da baixeza da várzea
Ao pico da montanha.
A quarta é estranha,
É Bahia, Minas, Goiás
Ao redor do rio
E à sombra do nada.
Vôo
E vê o mundo girar redondo
Órbitas elípticas de ambos
Em espiral infindável
A espera da cicatriz leva o tempo
Que o tempo leva em si
E os males se curam per si
A elipse se desfaz em reta
O mundo é plano enorme
A se explorado em tantos vôos
Que o tempo e as asas circundarão
Lúdico
Lúdica intersecção
Entre o brinquedo
E a perfeição.
Ser dos dois uma farra
Sem ter tempo de brigar,
Um instiga outro segue
Outro chama e um vai.
Jogos e decisões
Jogadores nos serões
Um impõe outro replica
Outro vai quando um fica.
Diversão e sensatez
Complemento e franquia
Outro ri quando um canta
Um se encanta, o outro guia.
Pelos Pêlos
tem pêlos como os meus.
Me impressionam os pêlos dos mortos
Os cabelos dos cadáveres parecem vivos
Quando açoitados pelo vento
Balançam os pêlos vivos do morto.
Lembro da crina do cavalo no pasto
Assassinado por picada de cobra
Os cabelos do cavalo, crina e rabo,
Estavam vivos no animal morto.
Os pêlos do cachorro atropelado
Tremulam presos ao defunto bicho
Parecem voluntariosos em dança
Na música tocada pelos ventos que mexem
Minha barba está morta
Arrancada pelas lâminas guilhotinas
E descem nas águas pelo ralo
As barbas dos mortos crescem
Estão mais vivas que a carne
Em dúvidas sobre a acentuação pela nova ortografia. Tenho até 2012 para aprender e gostar.
Mudança
Como destinos nos livros
Guardados com as traças
Mãos de homens naas coisas
Coisas minhas nessas mãos
Eu nas coisas dos homens
Meus gatos lambem as patas
Meus olhos nas patas dos gatos
As pálpebras dos gatos se fecham
Como as caixas, esperam
Meu homem dá as ordens
Os homens fecham as caixas
Minha história segue meu homem
A caixas seguem com os homens
Minha vida no caminhão
A mudança em mim
E eu no avião
sexta-feira, 16 de janeiro de 2009
Toque
Hálito morno
Leve como brisa
Na ponta da língua
Pós noturna
Pela fresta pré-matina
Atravessando de leve
Sem pressão, nenhuma pressa
Os nós de nós
quinta-feira, 15 de janeiro de 2009
Frágil
Eu não insisto para disfarçar quando ele desiste
Nós dois fingimos que é fácil o mais difícil
quarta-feira, 14 de janeiro de 2009
Arrebol

A cortina acena leve
Vela a tarde que perdura
Nos sinais vermelhos.
É vela e leva
Tédio e medo de uma esquina,
A toca de toda minha história
Que se desterra
Faço contas. Conto-me
Coisas desta terra
Tórrida de lembranças.
Desconto dúvidas,
Pago dívidas,
Deixo o corte.
Destravo-me
Desta vida aberta sob o cinza
Céu rasgado por tuas mãos
Na minha pele lisa
É despedida em riste
Arrebatada do papel sem uso
Onde escorrem idéias em fuga
- Plenas de azul, meu léu -
Arrebentam a moldura frágil
Ponta deste adeus crispado
Fortes, na vaga da minha felicidade,
Navegam meus gatos
Nas caixas, livros e quadros
Rumo ao sertão, seu sol
Minha morada real
sábado, 10 de janeiro de 2009
Rotina
Abana o rabo,
Boceja enfado
Sem sedução,
Um vento velho nas janelas
Vaza - sem talvez - a presença de sim e não
Da noite vazia, restos na tarde de cochilos
Flagra fatal na ilusão
Calam-se os urros do ar em flâmulas imóveis
A vida vai
A curva vem
O sono dele em vão
O tempo parou
Vou?
Fui, acabou
segunda-feira, 5 de janeiro de 2009
Puro Sangue
Passeia uma era
E um olhar se perde
No passo desta tarde
Imóvel como um fóssil
Um cavalo castanho
Monta em pêlo
Meu coração selvagem
E atropela o crepúsculo
Assustado pelo estranho centauro
Raçado de músculo e sentimento
Passa aos trancos
Zunindo risos no caminho
Metade é meu homem
Outra parte é ele ainda
Mais másculo
Nos cascos e coices
Galopa por uma noite
Meu peito moído pelo tempo
sábado, 3 de janeiro de 2009
Cinza , tarde e tédio
Bolinha de pêlo aninhada
Minha gata machucada
Amassa nas patas sua dor
No meu braço
O ninho do seu desamparo
Nossa identidade animal
Mínima
Na tarde rajada
De cinza e tédio
A gata não pensa
Sente o ar
Tão fêmea e desesperada
Menos animal mais apressada
Próxima
Seguro a cabeça
Dor do pensar
Na pele que sente
No mal-estar sem apelo
Diante dele que me quer
Farra felina sem ser fera
Sexo
Sou mulher sem ser cativa
Apenas festa sem par
Capricho
Assim mesmo
Sou aquela sem texto
Sussurro de bicho
Fujo
quinta-feira, 1 de janeiro de 2009
Útilfútil
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Iludida, cobra
Desde a véspera
A dívida indevida
Víbora
Ela espera da vida
Um troco ainda que pouco
Porque é convencida
Louca
Acredita ter controle
Sobre ele - o seu amor
A crédito gravado a frio
Crédula
A cada madrugada
Grávida de sua vaidade
Estéril e vaga
Frágil
Ela sabe e mal vê
Que ele se entrega e navega
Ao lado, os braços largos de outra diva
Cega
Menos trágica, mais alegre
Menos regra, mais verdade
Menos fútil, mais útil
Toda leve, menos ela
quarta-feira, 31 de dezembro de 2008
Al dente
terça-feira, 30 de dezembro de 2008
Para ti, Paraty

Sob teu eclipse fui lua
Esplêndida sem tua sombra
Na praça fui beleza
Branca e aberta sem teus limites
Na ponta da tua caneta negra
Fiquei nua sem tua trava
No peso do teu traço fui leveza
Em tua desgraça fui a graça
Nessa tua escrita construída, fui natureza
Sentimento
Sem tua noite fui meu sonho
Sem teu medo
E na praia desta manhã
Sem vento
Teu sono é meu pesadelo
Acordei mais cedo
segunda-feira, 29 de dezembro de 2008
Tatibitate
sábado, 27 de dezembro de 2008
Do amor à partida
Da janela nua
E vaga na tela.
Raio retardado de estrela
Rastro de lua, o olhar
Repara a paisagem familiar,
Perdida no vácuo
De uma saudade prévia
Suspensa na passarela da partida
sexta-feira, 26 de dezembro de 2008
Convergência

Covergência, parceria com Marcos Pontes
Ele:
Me vi em seus olhos como num espelho
Escorado na vida como em frio poste
À espera de tua chegada definitiva.
Segui seus passos, passo a passo,
Pelas calçadas frias de vida incompleta;
Abri o abraço ansiando de corpo inteiro
Enquanto seu corpo não vinha;
Apressei o tempo na ampulheta cheia
E os segundos demoraram a cair.
Ela:
Descalça e distraída ia mundo afora
Meus rastros nas ilhas, nos desertos
Eram vagos, inesperadas trilhas
Nas avenidas - veredas minhas
As calçadas eram as passarelas
Onde sorri músicas dentro de bocas vazias
Dancei transes cerimoniais, nas horas fiz hora
Vivi os dias em passeatas contra amores gastos
Sem saber, sirguei teu rumo na crista dos minutos
Ele:
Vi passar alheado e roçando
Meus caminhos pelos seus;
Senti, sem querer, seu cheiro
Alisar minhas narinas descuidadas;
Percebi ao alcance do meu toque curto
Suas costas alvas, salpicadas de querer.
O que antes era distância e nada
Tornou-se constância percebida.
Nossas rotas retas bifurcaram-se.
Ela:
Nesse mundo amplo de pequeno, zanzamos
Até que seu verso fisgou minha retina.
E se foi encontro premeditado, profecia
Ou destino aninhado em golpe de sorte,
Pouco importa. Vale o traço da tua mão
Sobre a linha da minha vida aberta
À experiência -limite e embargo
Entre o prazer da tua cadência
O toque do meu ritmo - vibra a nossa sinfonia
quarta-feira, 24 de dezembro de 2008
Feliz Natal
Para lembrar e ser lembrados,
Para chorar e fazer chorar,
Para enterrar os nossos mortos -
Por isso temos braços longos para os adeuses,
Mãos para colher o que foi dado,
Dedos para cavar a terra.
Assim será a nossa vida;
Uma tarde sempre a esquecer,
Uma estrêla a se apagar na treva,
Um caminho entre dois túmulos -
Por isso precisamos velar,
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.
Não há muito que dizer:
Uma canção sôbre um berço,
Um verso, talvez, de amor,
Uma prece por quem se vai -
Mas que essa hora não esqueça
E que por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.
Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre,
Para a participação da poesia,
Para ver a face da morte -
De repente, nunca mais esperaremos...
Hoje a noite é jovem; da morte apenas
Nascemos, imensamente
Poema de Natal
Vinicius de Moraes
Recados, Gifs e Imagens no Glimboo.com
segunda-feira, 22 de dezembro de 2008
Enquanto espero
E as horas escorrem pelas faixas - latitudes
Na ausência, ocos e ermos de esperança
Aqui, onde amanheço mais cedo
Espero
A bailarina aparece na tela
De lá, onde a tarde começa
Na intimidade, a alma vacila
E a vida é promessa
A conversa amena disfarça a ameaça
A hora se aproxima
Da janela, vejo a imbaúba
Árvore mãe
Abrigo da orquídea salpicada de vermelho
Sua filha
A umidade nos telhados revela
Traços de sangue no orvalho
quinta-feira, 18 de dezembro de 2008
Stand by me
Quero você cada vez mais perto
Quero a serenidade dos amigos sinceros,
A calma dos dias curtos e simples
A vida aberta e meus frutos fortes
Quero meus gatos e todos os bons abraços
Boas festas!
When the night has come
And the land is dark
And the moon is the only light we'll see
No, I won't be afraid
No, I won't be afraid
Just as long as you stand
Stand by me
So darling, darling,
Stand by me,
Oh, stand by me
Oh, stand,
Stand by me
Stand by me
If the sky that we look upon
Should tumble and fall
Or the mountains should crumble to the sea
I won't cry, I won't cry,
No, I won't shed a tear
Just as long as you stand
Stand by me
domingo, 14 de dezembro de 2008
Por um triz
A tarde invadiu a noite,
Quando partiu um pássaro
O mar bateu no ventre.
Sob a ponta do salto preso
Ao medo de tropeçar no ar
Quase fugiu um chão afoito.
Trêmulo, o coração flertava
Com um presságio:
Coágulo desgarrado da razão
Alerta que filtrou com força
O destino frágil
Agarrou a vida e esvaziou a morte
Na maré vazada que trouxe
Palmas altas nas águas das promessas,
Doces, flores e milagres de volta à casa.
sábado, 13 de dezembro de 2008
Convite

Vem todo
E sobe no meu céu.
É seu o mundo sobre cada poro
Entra quando e como sempre
Eu menos quiser, sem medo.
Forra meu pêlos com sereno
Com seus milagres, molha meu sonho
Traga minhas delícias na relva dos cílios.
Vela meu sono, num contorno de carícia,
Trisca minha língua vívida
Roça meu peito ávido
Com sua voz rouca, instiga-me.
Abre o porto e fecha a trilha do não
Sem perder a linha, satisfaz minha lira,
Ache o quase e veja no beijo, o sim
Amy Winehouse and Paul Weller - Don´t Go To Strangers
quinta-feira, 11 de dezembro de 2008
Vigília
Tanto e tudo sejam
Desejo de ser tua
Cativa
Amante
Amiga
Para receber-te viva
Reter-me, unívoca,
Em ti.
quarta-feira, 10 de dezembro de 2008
Restos

Distância
Assegurando esta vigília
Vaga solta que tomba.
Estrondo e lágrimas.
É trilha na garganta
Gosto de choro grosso e morno.
Silêncio
Engolido, molhado
Sorvendo sono, secando sonho.
O beijo perdido no beco
Fundo do silêncio
Que prende o ar.
No escuro do fim,
Dois gatos esperam
Sem resposta.
Restos sem rastro
De esperança sem registro, espectro
Onde pousam as patas sem passos.
Nina Simone - I want a little sugar in my bowl
Construtor

Faz o dia aparecer
Devagarzinho e logo cedo
Enternece a vida
Traz alegria esquecida
Faz carinho com a voz
Depois, cria ninho
Faz a casa ser mais linda
Cuida da vida
Com a paz em cada passo
Assopra longe os medos
E acorda alegre
A pele do segredo
Faz a manhã feliz
E quando volta, traz a tarde
No beijo com abraço
segunda-feira, 8 de dezembro de 2008
Entreato

Entre a tua solidão e a minha
A noite avança contra o céu
No grande silêncio aberto
Entre o teu sono e a minha vigília.
Nosso devaneio treme
Entre nossas retinas insones
Arranhadas pelo sereno.
Buscam-se nos parques, praças
Onde minha infância e a tua se encontram
Nas folhas de uma avenca,
Verde, efêmera delicadeza do alpendre
De ontem.
E nosso destino sonha de frente
Para o pôr-do-sol
Entre a minha serenidade e a tua pressa.
A brisa desfaz a bruma que embrulha nosso presente
sábado, 6 de dezembro de 2008
Sherazade
Conto cem histórias pra mim
Até acalmar a loucura do sultão
Que abala minha certeza
Até o sono ir daqui
Espantar a morte deste berço
Profano sonho, até acordar
Tuas mil e uma noites.
Era uma vez minha falta
Na dúvida do teu trono,
Te amo
quinta-feira, 4 de dezembro de 2008
Chachachá
Desse teu cogito perverso
Ela chega aos saltos
Altos e finos. Levita coragem
No chachachá mais lindo.
Brinca e sorrindo, escorre
Seiva irresistível de menina
No teu sofá, onde sentado
Estás perdido, caçador de gazela
Diante dela, terna fera
A feliz mulher da vida
Da tua verdadeira terra.
terça-feira, 2 de dezembro de 2008
Corrente

Tua pele que me olha
Cúmplice e flerta
Meu olhar que te molha
Temporal e toca
Tua boca que me testa
Esperta e acorda
Minha voz que te acalma
Íntima e provoca
Teu sorriso que me canta
Depois do palco, no camarim
De nós dois
Onde minha alma escorre
Antes do teu aplauso final
Santana - Samba pa Ti
Imagem: Pearls
domingo, 30 de novembro de 2008
Malazarte

Brilha na pele
Tua alegria que fere
Brios e zangas.
Tua infância levada
Deslizou com a serpente
Do teu tempo esticado
Teu amor pelos cavalos
Teu mar solitário
Teus sentidos amortecidos
Teus venenos purpurina
Tua coragem bêbada
De medo solto na fumaça.
De éter foi teu flerte
Tua sina de rebelde
Tua vida contra morte
Teus anjos da guarda exaustos
Teu sorriso presente.
É terna minha confiança, malazarte,
Ao ver-te rasgar tuas crises
E furar tuas dores,
Aprendo contigo
A quase morrer e voltar
Eterna criança sempre viva.
sábado, 29 de novembro de 2008
Poema Dia - Um poeta a cada dia
Dia 1º/12, segunda-feira, começamos, esta aventura que é
Paratexto
A palavra alinha a letra
A letra lavra a língua
A língua age em fala
A fala fixa o signo
O tom sonoriza o significante
A sintaxe sintetiza o som
Forma a frase, traça a imagem
Faz do rastro o significado
E grafa a paisagem
sexta-feira, 28 de novembro de 2008
Súbito
quarta-feira, 26 de novembro de 2008
Credo Sem Graça

A tarde espreguiça
Nos passos da lucidez
Que se afasta desse destino
Laçado nas nuanças
Dessa curiosidade malsã
Escondida nas saias
Nas dobras dessas moças
Na sanha
No interesse disfarçado
No sorriso amargo
Desses falsos titãs
Estacionados na ressaca
De seus lapsos
Sulcados nas esquinas
De seus discursos sem alma
Nem sentido.
Chove na praça
Ao som da ária clássica,
Passantes cedem à saga,
Senhoras vencem a insônia
Rezando seus terços de aço
Desfiam sonhos sagrados
Sem graça.
E sobre o sabre do silêncio
Faz frio
E sombras sussurram
Salvem-se
terça-feira, 25 de novembro de 2008
Íntima
sexta-feira, 21 de novembro de 2008
Diva
Diva é aquela que faz com que se prostem à sua frente, quedados por seu talento, carisma e força.
Nasce festa, cresce aos saltos,
Roça de leve quando passa,
É de éter.
Quando pisa, rasga a vida,
É lava de libido.
Escorre brilho pela fresta
Do olho da outra.
É espelho
Quando é a mesma.
Quando veste seda e renda,
Coleira de pérola,
Brinca com a pele nua.
Quando quer mostra o gênio,
É deusa.
É altiva, quando vadia.
Diva é vento,
Leva o medo e traz a graça.
Em cada poro é alegria.
Quando é triste, faz troça,
Esconde a dor atrás dos dentes,
Dissimula meia vista
E mostra a língua.
Leni Riefenstahl,
A Deusa ImperfeitaEla era a diretora preferida de Hitler, que, dizem, até se apaixonou por Leni, a mulher. A vergonha do holocausto manchou-a indiretamente, foi discriminada em sua época e a história legou para ela uma herança de preconceitos.
E foi, também, um dos maiores gênios da história do cinema...
sábado, 15 de novembro de 2008
Dry Martini

Passos de pressa
Encerram o abraço
Do dia com a praça
E passantes tropeçam
Nos dejetos da tarde
Laçados no mesmo desejo,
Satisfazer, sem medo, a sanha
Na calçada desse crepúsculo
Cúmplice e sedutor da diva
Vestida de preto e segredo,
Sátira e algoz da lucidez
A noite, antes de descer sobre a cidade
Assopra a seda da moça
E faz supor força doce
No viço do garçom
Que lhe serve taças sôfregas
De martini seco gelado sem gelo
segunda-feira, 10 de novembro de 2008
Sem Querer

Sem que eu peça
Teu rosto passeia fora da taça
Desloca o ar, sobressalta a boca
Põe minha certeza de ponta-cabeça
Sem que eu espere
Estremeço quando lembro
Do olhar vazio, do canto sem enlevo
Do cheiro de medo
Sem que eu impeça
Temo que a felicidade se mexa
Fuja ao menor movimento
Antes que eu te esqueça
Sem que eu queira
Soluço, enjôo, ciclo
Parto, espasmo, abraço,
Beijo, depois fico imóvel em mim
Sem pedir, duvido
Sem impedir, aconteço
Sem esperar, vacilo
Sem querer, termino
Imagem: Cruel, Deborah Colker
quarta-feira, 5 de novembro de 2008
Aurora noir(e)

Entre as telhas, sereno
Jaz um resto de esconde-esconde
Que brinca de decifrar armadilhas primevas.
É quebra-cabeça impreciso que rói
A parede da noite de uma criança
As sombras são leões com jubas de folhas
Nos olhos de espanto azul franzido
O prazer da fera em plena fuga é ele.
Rei à espera na rede do terraço ancestral
A presença da sua ausência é caos
Na areia da vanguarda, vacas mansas flertam
Com seus heróis pescadores que espantam
As gaivotas vorazes do pensamento.
À luz da estrela da manhã, o primeiro cigarro
Aura noir(e) no alvorecer
Ela avança lãs enroladas nos tornozelos
A cabeça levemente inclinada para esquerda
Nas mãos o calor do café acorda a dúvida.
Não sabe o que mais teme ou deseja ser
Tentou ficar muito quieta
Imagem: Hiroshi Sugimoto
Música: Chopin Nocturne
quarta-feira, 29 de outubro de 2008
Sem pressa nem tempo

Espero o calor lamber as horas
Que passam em delícias,
Enquanto morre uma tarde
Uma boca engole o dia,
Morde meu juízo.
Sem dor nem pressa,
A manhã nasce à força do fundo do relógio ávido de desejos,
Por onde escorre o susto. E o risco arrepia
Grafite de musgo no muro da têmpora.
Sem tempo nem dor
Pulsa um rastro de eco – escuro do meu grito.
No paço de lembranças, desmaiam retratos ao vento
Desmanchando em migalhas o museu ultrapassado,
Quando a ponta de um trovão explode a vida em cheiro
E sabores nítidos.
Sem dor nem cansaço,
No sinal vermelho, uma esquina pára.
Corpos tomam o fôlego das narinas tesas
Pelo ar que roça de leve inteiro o dorso dessa busca sem descanso.
Sem drama nem medo,
No quebra-mar dos olhos batem sopros. E voltam cantos.
Na minha garganta, uma sereia desliza
No sal da saliva sumo e gosto da pele e mais.
Um gesto solta o centauro.
Luli e Lucina - Amor de Mulher
Imagem: My Bed, Tracey Emin, 1998
Compulsão Diária, outubro de 2008.
(grande amigo, tremendo poeta e mestre generoso)
Não sei se foi

Na retina o ar tremeu de calor
Não sei se foi o prazer perto de mais
Medo do frio dos museus pós-modernos
Não sei se foi o desespero
Do mais gozar - frenesi - do mais comprar
Não sei se foi o reflexo dos passantes
Em feitiço na vitrina, eram fantasmas
Não sei se foi a lembrança da tradição
Do hospital desmembrado nas três esquinas
Não sei se foi a visão do quarto
Era ela quase morta no dia da passeata
Não sei se foi esse começo de verão na primavera
A felicidade da menina distante, a mulher bailarina
Não sei foi a lama na campanha
Os dois candidatos empalados nos postes do preconceito
Não sei se foi a decadência da avenida
A falta da falta daqueles que faltaram
Não sei se foi agora que eles são peso morto
Presença da ausência inesperada
Não sei se foi esse adeus na ponta da língua.
Foi o tronco marrom sob a sombrinha
O olhar no sorriso daquele toco
Foi a dor peregrina sem membros
Foi a boca e a sede do menino-torso
Foi a letra na caixa de sapatos
Daquele texto triste
Pedido de amor - muito mais ato
Menos esmola, um nada de pena
Agora sei, foi o mesmo descaso.
Ele e eu amputados
Foi ele sem movimento
Minha mão sem gesto
Foram saudades súbitas
Dos horrores destas ruas
Deste vazio nas sarjetas
Dos excessos desta minha cidade.
Compulsão Diária, outubro de 2008
sábado, 25 de outubro de 2008
sexta-feira, 24 de outubro de 2008
Antes, depois, agora e sempre
Eu sempre te quis
Antes de saber de mim
Das coisas minhas que tenho em ti
Essa ternura em carne viva
Do teu coração onde minha lua gira
Na tua sorte que me pega e convida
Para que minhas manhãs comecem nas tuas
E as tardes tuas e minhas
Caiam em nossa noite única
Eu sempre te quis
Depois de saber de ti,
Das coisas tuas que tens em mim
Esse desejo de amor de alma
Do meu corpo onde tua pele fica
Na minha sina que te segue e avisa
É teu meu presente que chega
Na rua da casa da tua esquina
Que fizemos minha e tua
Eu te quero agora
Mais ainda, por saber nossas
As coisas de cada um
Eu te quero sempre meu
Para que me faças tua
Sem deixar de sermos dois
*Imagem:Barbara Krueger, Power Pleasure Desire Disgust, 1997 Deitch Projects, New York
domingo, 12 de outubro de 2008
Lançamento D'Acolá - Livro de Marcos Pontes

Local: Boteco do Ferraz
às 19 horas
Esquina da Rua Mário Ferraz com Rua Tabapuã - Itaim Bibi
O livro D'Acolá, de Marcos Pontes, reúne um conjunto de contos, ou narrativas curtas, caracterizados por fina ironia e crítica a valores muito característicos de nosso tempo. O autor localiza seus personagens, de distintas origens e idades, nas mais diferentes cidades e regiões do país, como a compor um quadro nacional, embora a maior parte dos conflitos possa ocorrer a qualquer indivíduo em qualquer lugar.
quinta-feira, 25 de setembro de 2008
Tardes de Sabá

Cheiro de ervas nas tardes de sabá
Consagradas ao profano.
Sumo de maçã
No cálice sagrado
Ela metade criança, outro lado desejo
Ele - pleno - despeja anseios.
Dois cataventos e um rumo
Ancorados na paisagem do tempo.
Santana - Samba pa Ti
domingo, 21 de setembro de 2008
Paratexto

Paratexto
A palavra alinha a letra
A letra lavra a língua
A língua age em fala
A fala fixa o signo
O tom sonoriza o significante
A sintaxe sintetiza o som
Forma a frase, traça a imagem
Faz do rastro o significado
E grafa a paisagem
Paratexto é limite entre os contornos do texto e o que o institui como obra.
Amelia, desafio à percepção visual do espectador com singulares efeitos luminosos, movimentos de câmera e coreografia plena, complementa o texto.
imagem:Regina Silveira, Caro Duchamp
sábado, 13 de setembro de 2008
A fragilidade é sua arma
Mulher covarde! Trôpega, arrasta
Cordão de imposturas, compaixão seqüestrada
Violenta, finge ser quebrada e pende a cabeça ao lado
Entorta para esticar o laço.
Invejosa, elogia e cala para brilhar.
Exige segredo para fazer chantagem
Estraga o solo, erva danosa com seu não saber calculado.
Nada consegue, mas tudo tem.
Vive às custas da impostura perversa
Cava seu buraco: Vem cá! Estende a mão para o abismo de sua voracidade
Fera acuada simula estar morta.
Nega um copo de café enquanto engasga na fonte
Inútil, sabota projetos para roer seus restos.
Seu olho atira injustiça congelada
Escondida, revela a farsa sem querer.
O tempo - melhor amigo da verdade –
Casado com a entrega e a amizade armou o bote.
Arrancada de si mesma, faz máscara de choro aguado
Lágrimas de raiva contida escorrem abjeção
Força a piedade sem culpa. Esmola na careta de súplica.
E eu? Nem vejo mais o estertor desse bicho de nojo.
Troquei a fechadura, soltei as crianças presas em sua teia,
Lavei as paredes, replantei o jardim, salvei as duas flores mais limpas
E preparo a primavera.
terça-feira, 9 de setembro de 2008
Sem Fim
No sem fim de mim
O poema, em queda, desaparece
Na boca desta manhã inquieta.
Minha poesia desafia teu rito,
Enquanto meu verso espera teu ritmo
No sem fim do texto
Tua prosa circula misteriosa,
Meu pensamento desconfia,
Tua palavra vaga na minha frase.
Depois, brilha na tua fala clara
No sem fim de nós
O tempo traça a fenda,
Rasga a vida e explode o dia
Dentro do eu que resta
Perto do tu que és meu
*Imagem: Richard Serra at MoMA - Band (2006)
quinta-feira, 4 de setembro de 2008
Pontyiana

É o sol dentro de mim
No céu, é o vermelho
Carne do corpo e das coisas
Sentinela do sensível
Parto do ser bruto e do espírito selvagem
Visível dentro do invisível
A escrita quebra o silêncio
E o pensamento interroga o impensado
A cada plenitude, um vazio
No tapete tecido pela linguagem
Barnett Newman - Vir Heroicus Sublimis - 1950, Museum of Modern Art, NY
terça-feira, 26 de agosto de 2008
Celeritas

Te leio, luz no vácuo
Te quero constante
Sentimento em velocidade
Te espero, segredo atômico
Entre ondas sonoras
É saudade
crédito da imagem:
Fuerzabruta, De La Guarda, NY
domingo, 24 de agosto de 2008
Efêmero

Na janela o vaso acolhe o passo do gato
E amortece o som do guizo
Por um triz, o botão de lírio não acorda
Nina Simone estilhaça a espera
É aviso!
Longe daqui naufraga um navio
A flor explode no bocejo
Just Like A Woman cruza o silêncio
E diz - ninguém sente dor
A bailarina arma o grande salto
Meu coração se fecha e o chão se afasta
Depois, passa.
* esta é uma homenagem. não está em edição.
Ontem, o sábado foi em suspense porque não era post.
domingo, 17 de agosto de 2008
Desconversa
Miro pela fresta dos seus versos retesados
desejo pelo diálogo dos textos
sonho
no balanço das suas palavras
meu pensamento vacila
quente
Um estalo no seu vaivém noturno
Você volta frio
Estica nossa primeira frase
sua fala fértil corta o nexo
Falo que faz falhar este começo
domingo, 10 de agosto de 2008
Alma
Denso, terno e calmo
Avança
Enquanto sonho
Traz palavras eriçadas
brancas e limpas
Rumor de afeto que me acorda
Na praia, lusco-fusco agora
Desconfio
Será que vejo?
Sinto
Seu texto
No horizonte do meu colo
traça a cor do dia
Faz aurora
Sua frase abre a sintaxe
onde me perco
Enquanto vago no seu ritmo
Desejo
quinta-feira, 7 de agosto de 2008
Fuga (ex- Calmaria)
vazante calculada
(pre) amar no contra-fluxo
Fuga
mergulho no marrom
-véspera do vermelho-
onde me refaço
na próxima hora
naufrágio evitado
singro serena
toccata turquesa
virtuosa
Em êxtase navego a água azul
na brisa do instante
beleza recuperada
que fiz sem promessa
Do que quer que seja
Pode ser nada.
sexta-feira, 1 de agosto de 2008
Interlíngua
sujeito
Je suis cela
Na floresta
Perdida
Je suis chat
Nesta flor está
Tudo e tanto
cuidado
que o contato
todo
num pulo
se perdeu
flor que resta
sou
detrito
abjeto objeto
moi, je crois
mar
estrela inquieta
sou isso
enigma
noite quente
lábil
cifra em suspense
entre
a língua e o mundo
-intersentida-
Sou toda narrativa
quarta-feira, 30 de julho de 2008
Pergunta/6
(você me pede)
- Vamos continuar?
mergulhado
no oceano da tarde
- concha acústica para o silêncio-
a madrugada ampla traz
frio e eco
você penetra
aquece
minha respiração insone
Vigoroso
depois do sonho
você me atrai para fora
do sono
marca o lago
assopra poesia
Semblante frágil
disfarça o pulso viril
enlaça meu colo
cerca nossas bocas
todo meu corpo
oscila neste canto
- poema e cama -
calmo e vago
louco e vasto
som e abrigo
armadilha absoluta
atônita recebo sua gula
- toda, tanta e tonta -
esfola e imola meus orgãos
seus ossos de homem
contra os meus
de súbito recuam do ato
- Quer me ver?!
nesse hiato penetra
claridade de céu
que lhe ofereço
desta face
a dúvida
Nós?! Dois
sorrisos lights
desatamos línguas
deslindamos versos
Mal rompe a manhã
lutamos corpo a corpo
com as sobras
das palavras
refazemos
encantos desfeitos
Você, poeta, risca
na brisa edifica
o projeto
Aprendiz, construo
lentamente
solto o tema na carne
sorvo o ponto
Todo o tempo
no seu corpo
há muito tempo
- Pergunta !
(você insiste)
- Vamos continuar?
Pergunta-5
a madrugada ampla traz
frio e eco
você penetra
aquece
minha respiração insone
Vigoroso
depois do sonho
você me atrai para fora
do sono
demarca o lago
assopra poesia
Esquece
a morte do cisne
Semblante frágil
disfarça o pulso viril
enlaça meu colo
cerca nossas bocas
todo meu corpo
oscila neste canto
- poema e cama -
calmo e vago
louco e vasto
som e abrigo
armadilha absoluta
atônita recebo sua gula
- toda, tanta e tonta -
esfola e imola meus orgãos
gruta
fértil de anjos
varados de prazer
seus ossos de homem
contra os meus
de súbito recuam do ato
- Quer me ver?!
nesse hiato penetra
claridade de céu
que lhe ofereço
desta face
a dúvida
Nós?! Dois
sorrisos lights
desatamos línguas
deslindamos versos
Mal rompe a manhã
lutamos corpo a corpo
com as sobras
das palavras
refazemos
encantos desfeitos
Você, poeta, risca
na brisa edifica
o projeto
Aprendiz, construo
lentamente
solto o tema na carne
sorvo o ponto
Todo o tempo
no seu corpo
há muito tempo
domingo, 27 de julho de 2008
Pergunta/4
-Pergunta!
(você me pede)
- Vamos continuar?
Homem fatal
multiplica
em mil graças
reflexos azuis
nostalgia de horizonte
olho mergulhado
no oceano da tarde
- concha acústica para o silêncio-
a madrugada ampla traz
frio e eco
você penetra
aquece
minha respiração insone
Vigoroso
depois do sonho
você me atrai para fora
do sono
demarca o lago
assopra poesia
Esquece
a morte do cisne
Semblante frágil
disfarça o pulso viril
enlaça meu colo
cerca nossas bocas
todo meu corpo
oscila neste canto
- poema e cama -
calmo e vago
louco e vasto
som e abrigo
armadilha absoluta
atônita recebo sua gula
- toda, tanta e tonta -
esfola e imola meus orgãos
gruta
fértil de anjos
varados de prazer
seus ossos de homem
contra os meus
de súbito recuam do ato
- Quer me ver?!
nesse hiato penetra
claridade de céu
que lhe ofereço
desta face
a dúvida
Nós?! Dois
sorrisos lights
desatamos línguas
deslindamos versos
Mal rompe a manhã
lutamos corpo a corpo
com as sobras
das palavras
refazemos
encantos desfeitos
Você, poeta, risca
na brisa edifica
o projeto
Aprendiz, construo
lentamente
solto o tema na carne
sorvo o ponto
Todo o tempo
no seu corpo
há muito tempo
algo em você
se expande
grande, grande
enorme
alarme em mim
meus olhos planam
conversamos ex-segredos
de onde me vejo
duas
uma renuncia
rói nome, apaga rastro
a segunda deseja lábio
afeto e cio
lânguido desmaio
- Pergunta !
(você insiste)
- Vamos continuar?
* Este aqui está carne crua demais. E resolvi colocar assim mesmo, porque confio e tenho gostado tanto da experiência que deu mais coragem, ainda, de mostrar meus erros. Por favor, leitores e leitoras mais do que queridos e queridas. Todos adorados, por favor, interfiram muito. Este precisa sair comme il faut, ok? Conto com todos e todas.
sexta-feira, 25 de julho de 2008
Resgate
cena repisada
fase frustrada
flagra teu fogo
fraco
Um choro sem gosto
vem frio
por trás do soluço
ressaca de frases
restos de versos na orla do sono
tua palavra
abre uma ostra
- duas conchas -
uma fila de letras tépidas
rastros de inverno
sal e areia
disfarçam gestos
sua mão arisca
lixa
raspa
acha meu tato
Amanhece o texto
sexta-feira, 18 de julho de 2008
Instinto
jade e preto
Guarda-me, gato
anjo em pêlo
rajado
instinto e candura
nada sabe
da morte
- a risada
Músculos relaxados
abana o rabo
boceja enfado
discurso mudo
pede-me colo
carícia
toda ternura
Meu jaguar domesticado!
Perdida e sem palavra
no quarto
desgarrada
mostra-me o caminho.
Seu sorriso é sílaba
seu ronron é sorte?
domingo, 13 de julho de 2008
Na Estrada - versão definitiva
As rimas em tumulto
mal sabe acalmá-las
nas palavras amotinadas.
Segue paralela ao som
Fluxo forte sem pulso
o ar aos urros entre as sílabas
desmantela ritmos e amplia dissonâncias
Ventania nos versos sem compasso
A boca engole o frio desses sopros
cospe o gelo do fonema soluçado
onde o escuro é mais escuro
Tragada pela palavra, cai
Vontade de lágrima e letra
Alaga-se na avalanche de signos
Escreve o tédio e encharca a margem
Na madrugada, perde-se na estrada.
O poema anêmico em surto
cega faróis em fuga
vai solitário na noite insone.
A vida vai, a curva vem e o nome dele em vão.
* Muito obrigada a todos que vieram e fizeram sugestões, leituras críticas e ajudaram na construção desta "estrada". Resolvi colocar o ponto final aqui. Outros textos virão e, desde já, e é meu desejo de que, na medida do possível, todos participem deste processo rico e divertido sempre.
Bom domingo!



