segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Amarela

Alva, alva, branca

Teu leite em minhas mãos

De café aguado

Tuas turquesas oculares

Em minhas esferas de âmbar

Par perfeito.



Branca, branca, alva

No contraste de nós dois

Aquarela.

Todas as tuas cores

Nenhuma cor em mim

Complementos.



Clara, clara, nuvem

Em meu céu tempestuoso

Inquieto.

Tua calmaria dia claro

Meus ciclones irrequietos

Estações.



Alva, clara, nuvem branca

Serena garça vôo solto

Ninho.

Tu planas sobre mim

Espero teu pouso

Vida.

Recorrência

O poeta se prende

No tema recorrente

A todos os poetas.



Forceja contra o óbvio,

Briga contra o que foi dito,

Redito, bento e maldito.



Não há poeta que não fale

De amor, paixão, dor e lua,

Que não caia na armadilha.



Quem se arriscar a escrever

Não resiste ao tema pronto,

Cede um dia ao lugar-comum.



Dura missão de tentar

Não repetir o que leu

Ou não leu, mas já existe.



O poeta resiste e não mais poder

Até dar-se por vencido

E votar a calçadas já pisadas.

Até Logo

Senti os nós dos ossos

E o cheiro da pele.



Olhei o fundo dos olhos

E as tetas que me olhavam.



Beijei todos os lábios

E o vão livre entre as costas.



Dias se confundiram com noites,

Noites viraram manhãs

Num ir e vir de maré,

Forte e oloroso oceano

Entre dois náufragos

Agarrados numa só vida.



Senti o afago dos dedos

E o calor da boca molhada.



Ardi em fogo bando,

Assei em chama brava.



Me afoguei em saliva

E nadei em seu gozo.



Até logo dorido

Com gosto de muito mais.

Festança no Terreiro

Na melodia que me embala
Ouço vozes madrugada a dentro
Sax, flautas e trombones
Nos acordes desmedidos.
Rumba, polca, jazz e blues
Num sambinha sincopado
Reco-reco e violino
Vilvaldi, Bach e Caymmi
Rasta-pé levanta poeria
Capoeira levanta o pé


Tom suspenso e destemperado
Escala natural e mansa sacode
A casa espanta o sono
Disparo a dança no compasso
Enrosco a perna na cintura
No ritmo, dou um laço
Deslizo o braço, chego perto
Acende o olho do gato


Lundum, coco e tango
Martelo alagoano, valsa e chula
Melodia, Chico e Armstrong
Suor empapando a farda
Rodopio no salão
Saia e castanholas, flamenco
Rubor de faces e de trajes
Baleiro, Bosco e Aznavour
Casais em roda, roda, rodam
Cateretê e ciranda


Passo a passo
Xote, pasodoble e rumba
A manhã visita a roda
Mambo, merengue e milonga
Transforma o encanto em desejo
Bossa, forró e habanera
O silêncio vigia a festa
Carimbó, síriá e tambor de crioula
Chega o cansaço, marca a face
Be bop, swing e bolero
Traz o beijo.
O sopro arrepia a pele
Sinto o cheiro de café
E ouço o canto do galo.

Construção

Fez-se o verbo

E o predicado surgiu.

Os adjetivos abundam

Desde antes das letras.

Substantivos concretos

De arame a argamassa

Estruturam a construção.



Fez-se o verso

E a estrofe surgiu

Confundindo-se em fonemas

E sílabas que se confundem.

Advérbios, ênclises e mesóclises

Na salada de signos.

Gramática complicada

Sem lógica matemática.



Fez-se o vício

De escrever por segundos.

Alfabeto sem alfa ou beta

Numa babel gráfica.

Pleonasmos redundantes,

Cacófatos incômodos

Nos rabiscos em portas de banheiros

Alguns direcionados ao vaso:

Poesias bêbadas.

Adoniran

Adoro brincar de falar errado

Falar é chato

Brincar de falar é bom



Adoro brincar

Falar errado é brincadeira

Brincar é bom



Falar certo é regra

Brincadeira é transgressão

Transgredir é bom



Adoro falar certo

E brincar de falar errado

Brincar de falar certo é chato



Falar certo é gramática

Falar errado é brincadeira

Gramática é bom e chato



Falar errado é brincadeira

Ouvir o errado dói

Ouvir errado é chato



Escrever errado é errado

Falar errado é divertido

Diversão é bom



Dói ouvir errado

Gramática é certo

Errar a gramática dói



É preciso saber falar errado

Já ensinava Adoniran

Adoniran é bom

A Lua e Ela

Aquele tanto de formosura

Até feriu os olhos,

Doeu nos ossos,

Suou nas mãos,

Abriu fissura,

Botou antolhos,

Me deixou moço,

Me tirou do chão.



Aquela beleza toda

Me levou ao firmamento,

Botou quebranto,

Derreteu a pedra

Que me incomoda

O peito a dentro,

Refez o encanto

Que agora medra.



A lua de sentinela

Faz da noite dia

Dá-se nua na janela

E se espalha pelo piso.

Vejo na lua

Ela, minha amarela,

Brilho que arrepia

Com a cara num sorriso.

Autoridade dos Becos

Paciência era nenhum das vielas
Tinha cabeça de nada dentro
Carregava no colo e nas golas
Flores de papel crepon e broches improvisados.
Se tinha família, nem ele sabia
Não tinha nem a si próprio
Que fugiu de dentro de si com a cigana
Que fugiu de madrugada na garupa do mascate.
Paciência tornou-se senhor dos becos
comendo no simidão fumando por se de graça
Bebendo água de chafariz e pensando no não pensar,
Era o prefeito do nada, delegado de ninguém,
Baterista sem tambor.
Se me deixares à míngua
Sem água
Sem pão
Sem carinho

Se me quiseres morto
Sujo
Fedorento
Podre

Se me atirares pedras
Ou paralelepípedos
E me enterrares

Se me afogares
Ou me queimares vivo

Se te despedires
Quando te chamo
E nem ligares

Se me deixares nu
Com frio
Ou torrando ao sol

Se me atirares aos leões
Ou me sangrares
Com a lança dos gladiadores

De vingança
Não te esquecerei
E viverei do amor
Que sinto por ti.

Luar no Sertão

Luar no Sertão
O céu me sorri
Com lábios de quarto crescente
Sorriso amarelo e banguela.

Na face abobadada
Sardas brilhantes e sem fim.

A noite passa,
As horas anda
me o sorriso do céu levanta
e adormece sob o lençol amarelo
do fim da madrugada.

Bocagiana

Gaze, iodo, esparadrapo,
Papel, tinta, caneta,
Moela, cloaca, papo,
Zarolho, vesgo, perneta,
Cobra, perereca, sapo,
Asma, azia, enxaqueca,
Bonito, charmoso, guapo,
Azul, amarela, preta,
Pipeta, béquer, proveta,
Toalha, talher, guardanapo,
Ripa, madeira, vareta.

Mãos Vazias

Na palma da mão
Tem uma poesia inacabada
Que acrescenta um verso a cada dia.

Na outra mão
Uma página em branco
E se mais mãos tivesse
Para outras poesias serem escritas...

Veia poética
É do homem que faz poesias
Com a ponta dos dedos
Como o poeta que se foi voando
Com suas asas portáteis
Escrever nas nuvens
Suas poesias celestiais.
Morrer de amor.

Mão é para um eu,
Somente para quem viveu de amor
Cantou o amor
Escreveu o amor
E perdeu um grande amor.

O poeta foi apaixonar os anjos
Porque na Terra
Não havia mais quem não o amasse.

O maior poeta vivo
Está fazendo vestibular
Para maior poeta do Céu.

Urbano

Luzes
Faces
Faces luzidias dioturnas
Nas paredes grafitadas
De meia noite insone.

Flores cadavéricas
Nos pés da estátua
Em homenagem esquecida
De séculos sem tempo.

Ruas da cidade
Sem razões quadráticas
Na visão do bêbado multiforme.

Cinzas
Tintas
Merda
Mal cheiro de cavalos
Suados e maltratados
Por vielas iluminadas de neônio
Sob a Lua descorada
De cidade esquecida.

Batinas
Sexo
Na sacristia.

Revistas imorais
Cine privê
E sala lotada
Com televisão mentirosa.

Aventura

Subi no pedestal dos seus pés
e escalei a parede de suas pernas
numa subida íngreme e sensual
explorando cada recanto
de suas montanhas e vales.

Erguia-me instintivamente
em busca do que nunca vira,
mas sabia onde encontrar.

Sem cansaço e sem pressa
segui na jornada,
a boca secade ânsia.

De repente
sua planície vertical até então
com vagar foi deitando
e eu junto.

Após seu bosque de touceiras
tecidas desarrumadamente
viajei em busca das montanhas gêmeas
e, no cânion entre elas,
não soube que lado seguir.

Meu aríete já explorava a caverna
por ele desconhecido
(missão pouco ortodoxa para um aríete)
e nos deliciávamo
sem beijo demorado e úmido
com sabor de sexo.

Casual

Nada sei de propósito

Vejo a flor e adivinho a borboleta

Ouço a água e sei do peixe

Pela buzina sei do atropelamento

Nada de propósito.



Sinto a brisa e pressinto a chuva

Olho a vaca e ante-saboreio a picanha

Pelo cacaueiro sei o gosto do chocolate

Na criança já vejo o chato futuro

Sem querer, por acaso.



Pela pasta sei da propina

Pelo terno sei do corrupto

Pelo espirro sei do vírus

Pelo sapato sei da puta

Totalmente acidental.



Por teus olhos antecipo a dureza

Tuas costas me contam da maciez

Olho tuas coxas e prevejo a noite

Teu batom me conta do teu beijo

Na tua mão fechada o adeus se apronta.

Perda Maior

Na fumaça louca do cigarro
A sombra da névoa da favela
Onde meninas estupradas
Fazem tricô com seus traumas
E mães aflitas e conformadas
Choram a dor do hímem perdido,
Mais valioso legado da filha,
Fisicamente uma película,
Na vida a própria vida.

Na brasa a verdadeira dor
De ter um assassino sobre o corpo
E um rasgar entre as pernas
Causando saltos inexplicáveis
Sob o seio duro,
Sem excitação, mas pavor
De encarar os desconhecidos:
O sexo e o homem.

Na cinza o passado remoto
Onde cirandas eram a brincadeira
Hoje proibida pelos nervos arrebentados,
A vergonha da perda
Do que sequer sabia existir.

O bandido está à solta
E as crianças nas ruas,
Vulneráveis ante a insanidade
Do endiabrado marginal,
Pênis infeliz na luta com a vítima.

Anjo da Guarda

Um beijo
No meio da minha cara
Me deixa pensando
No depois de agora.
Quero te amar até morrer
E depois da morte
Velar teus dias
Como anjo-da-guarda.

Pedra

Meu peito bate na pedra
fria, lápide rústica
não responde à batida.

Bato com o peito na pedra
e a pedra entra no peito,
quartzo perene,
insensível para novos amores.

Bato a pedra do meu peito
noutra pedra
e o som do choque
me torna de pedra,
pedra mole, talco,
arrebentando de querências.

Sem Pé ou Cabeça

Mais uma luz
Em outro túnel
E a indiferença de cada olhar.

De todas as direções
Um vento otimista
Me envolve como emplastro.

Uma mulher mal vestida
- ou pouco vestida,questão de opinião -
Me sorri na sua loucura
E me manda um beijo doido,
Beijo em quatro dedos
Que o vento desvia
Para o careca ao lado.

Meu otimismo
Não será abalado
Pela insanidade alheia.

Ela

Não a mesma que me amava
Ou a que me enganou,
Quero a diferente delas.
A que me tire a trava,
A cica de fruta verde,
Que tire o mofo da alma.

Quero que aja como dama
E me ame como vadia,
A que ralhe por nada
E ajude a acertar.

Quero a que não faça drama
E ria dos meus erros.
Uma que seja menina de tranças
E a senhora de coque,
A enfermeira diligente
E a magoada carente,
A que resolve tudo
E a que pede ajuda.

Molecagem

Atina para a tina,
Para a latrina do quartel
Cheia de sarapatel
De porco mal cozido.

Nota tua bota
Melada de bosta
De carneiro urbano
Que fabrica bolinhas de gude
Com que a mãe não te deixa jogar.

Pega uma refrega
Com o dono da venda
E xinga o molenga
Que não pode contigo
Nem com teu umbigo.

Cada cobra tem seu rabo
Para tu apedrejares
Não te chateies
Se errar uma ou outra,
Moleque do estilingue,
Das fechaduras das moças,
Das bombinhas na igreja,
Da lata no rabo do gato,
Do passarinho balado,
Do vaso Ming quebrado
E do olho roxo de soco.

Indelével

Na calma

E na meiguice de sua voz

Perco os sentidos

E saio de mim

Para lhe velar do espaço

Inviolável de nós dois.



Abro os braços

Na esperança de depois,

Não lhe encontro

E me fecho no mundo

Onde me tranco com você,

Sem você.



Com medo de me perder

E virar um vagamundo

Em meu claustro

Procuro suas mãos

Para me guiar.



Na falta de ar

Respiro pelas suas narinas,

Lhe escrevo rimas

Para não me esquecer

De como você é poesia.



Lhe pinto na tela

Lhe retrato

Na palma da mão

Para quando perder a visão

Ter o tato de sua imagem

Gravado,Tatuado na eternidade.

Pegadas

Perdi minhas pegadas Quando te segui;
Não vi meus olhos
Quando te olhei;
Quando me achei
Estava perdido em ti.

Antinomias

Clareza é a chave do enigma,
Aquele que não é segredo nem cria mistério
protege a verdade. É signo
revela e faz da justiça seu império.

Antinomias da modernidade desiludem a razão
Apagam-se as luzes na alameda das idéias
Racionalistas às cegas torcem, cortam e combinam sua álgebra em equação,
Lógica atormentada pela entropia trazida na corvéia de tristeza.

O elétron - ironia da relatividade radioativa - que mata e cura
A viagem à lua encara envergonhada a mutação do vírus
A vacina e o mapa genético tropeçam na fome, agonia viva do Quênia
O papelão da fábrica usado em cartazes contra o desmatamento
O líder holístico viaja de férias para as Bahamas
Madre Teresa, a santa, defende a dor com expiação dos pecados
Tira-se o óleo de onde deveria jorrar água
As avenidas lotadas e os palácios endinheirados contra a poluição
Servindo as mesas, o miserável sem pão
Quem jurou por Hipócrates não atende sem recompensa
O cérebro eletrônico aproxima corações e planeja obombardeio
O caça a jato engatinha no porta-aviões em plena seca nordestina
À mesma luz que mata o tumor programa-se para matar o tumoroso
Da Vinci quis voar em busca de neve, mas o que cai dos aviões são bombas
Crianças pulam amarelinha entre minas terrestres e perdem pernas ou a vida
Endeusa-se o negro desportista, e manda-se o negro cidadãoao final da fila

Bate-se na bigorna e na ferradura sem distinção
Corre-se para o abraço e em fuga
Declara-se amor e guerra com as mesmas letras
Escrevem-se poemas e bilhetes de resgate
Declaram-se manifestos literários e manifestos terroristas
Cantam-se cirandas e palavras de ordem
Anestesia-se a dor e a provoca com mesma facilidade
Acorrenta-se o navio de mantimentos e agrilhoam-se os inimigos
Entregam-se boas novas e antrax pelo correio
Cria-se Alícia pelas mãos de Adrià - combina-se alimentação com ciência - ingredientes de bomba na comida

E a tentativa para distinguir a verdade do erro não afasta a ficção
Cria ilusão de certeza absoluta - ignorância total

A Certeza - Resposta

O tempo rasgou a seda
Que encobria a carapaça;
O vento levou no vento
O que a alma escondia;
A verve trouxe aos olhos
O que o peito não via;
A palavra trouxe o furor
Que o corpo já não sentia;
A imagem trouxe a certeza
De que alma gêmea existe;
O amor deu ao futuro
O sonho de ser um dia.

Bom

Sentir nó no peito
Vindo do nada.

Andar sem pés no chão
Como se em nuvens pisasse.

Sofreguidão de vontades
E as vontades se misturam ao todo.

Raízes fincadas em outras terras,
Férteis campos sem cercas.

Olhos nos olhos da alma
Calma nos olhos da cara.

Sorriso tatuado sob o nariz
Que só se abaixa para o beijo.

Lábios, lúdicos passatempos,
Passeios por outros lábios ávidos.

Entrelaçamento de dedos
Emaranhados em pêlos.

Ancestral

Tua vida chega antes do meu sentido
Vago fundo no leito da tua história, minha sina.
Retiro meu olhar do teu
E vejo o olhar dele em ti.

Num mundo sem letras – a miragem
Brilha, o nome de teu pai.
Vejo minha senha,
Tua carne é minha travessia
Entre o-que-é e o-que-não-é. Ele!

Eis o teu amigo. Pele, cor e fogo.
Meu caboclo do pescoço grosso!
Tua coragem é meu sorriso.
Abro e fecho tuas cortinas.
Minha pálpebra é teu abrigo.

Tateio meu amanhã na tua fronteira
– memória e esquecimento.
Voltamos nossas costas para o futuro.
Meu medo vibra.
Tua mão possui a minha no real da terra-a-terra
Caminhamos para o começo.
Hesito no vento.
Teu calor movimenta meu ar, nossa tarde estremece
Sob as bênçãos do teu passado.

E a razão vacila.

Se agarro teu chão, tropeço no meu enigma
Aninhado na ilha arcaica, solo rústico dos meus xamãs.

Meu culto é teu mito
Esticado na linha da ancestral materna ,
Minha avó e sua filha, minha mãe, desatam o nó.

Sou da terra que fizeste tua no vigor da juventude
Nas ruas da tua Canaã, sou a estranha
Destas roças onde laças nós dois que nos sabemos sós.
Ele nos vela.

Nó Cego

Amalgamada alma amada
No toque de nós dois.

Acimentados sins e nãos
No agora e no depois.

Intrincado nó de dedos
Sob luz de luas e sóis.

Balé de ir e vir de corpos
Um sou eu, o outro sois.

Univeso binário
Eu e tu somos nós.

Chico

Ainda sinto sua barba
Áspera por fazer
Roçar meu rosto
No beijo de boa noite.

Sinto o cheiro do seu cigarro
No seu hálito gostoso
Do até amanhã,
O cheiro da sua boca.

Lembro a infância distante
Quando lhe via chegar
Montado na bicicleta branca,
Cansado, todo de verde.

Lembro das mãos gordas
Fazendo afago grosseiro
Em harmonia com sua voz,
Ralhando num carinho grosso.

Saudade da casinha
Cheia de todos nós
Esperando a luz se apagar
E ele acendendo o lampião.

Lembro dos lençóis brancos
Que nos escondiam no sono
Enquanto ele, sozinho,
Caminhava pela casa.

Lembro da cadeira de balanço,
As outras de espaguete plástico
Onde se sentava à noite
Ouvindo rádio ou estrelas.

Lembro das noites sem luz
E sua voz em serenata
Animando a lua e meus sonhos.

Meu pai, amor eterno,
Que saudade das conversas
Nunca trocadas, plenas,
Lotadas de carinho.

Seus olhos de lágrimas
De tanto bem-querer que tem
No seu silêncio de carícia
Por mim e pelos nossos.

Sobre Minas

Minas não tem minas,
É fazenda.

Onde se olha Minas
Vê-se roça e chaminés.

Minas não tem floresta,
Mas matinho pequeno
Com aroma de tempero e chá,
De remedinho de vó.

Minas tem gostinho de leite
E cheirinho de capim
No sobe e desce de suas serras.

Não seria Minas se fosse plana.
Leite e verde
É a Minas irregular.

Sampaulo

Rápida passagem,
Ficada eterna entre mesas e livros,
Entre amigos e avenidas,
Sobre prédios e em subterrâneos
Com a cidade em volta.

Mil sotaques,
Mil faces por segundo.
Todo o mundo numa rua,
Ruas para todo o mundo.

Veias e artérias de betume
Espalhando-se como pernas de gigantesca aranha,
Vasos entupidos de glóbulos parados.

Vi-me nas vitrines que não me viam,
Coloquei-me nas calçadas que me calçavam,
Amei na cama que me esperava,
Beijei a boca que desejei.

Quatro foram poucos
Quando mais dias queria.
Tantos os abraços
E mais os desejados, nenhum, porém, esquecido.

Não me eternizei em seus prédios,
As construções se eternizaram em mim.
Não finquei raízes ali,
Suas raízes me tomam.

Não deixei meu sotaque em seus ouvidos,
Ouço seus erres e esses.
Minha cara não ficou em suas retinas,
Seus rostos estão nas minhas.

Desta cidade trago meu tesouro,
Empobreço São Paulo
Trazendo a mulher que amo
E o coração dos amigos deixados.

Sede e Água

Parênteses abertos para o céu da minha boca
Escorre lama multicor pelos cantos
Em minha baba hidrofóbica

Solto-me absurdo e completo aqualouco
Na piscina revolta dos olhos horizontais
Que fitam absortos em movimentos elásticos
De estilingue em mãos de bêbado e sonolento amante

Rasgo as noites de seda sobre o colchão manchado
De outras noites e dias ininterruptos
Onde suores e demais fluidos se espalhavam
Segunda piscina corpórea sem fundo

Nos ruídos silenciosos dos móveis pela madrugada
Ouço os suspiros com timbre de aflição e me confundo:
Não são dores que levitam esse corpo em curva de abóboda
Reverberações roucas de estertores incontidos

Abre-se no céu o buraco dourado que mata a madrugada
Me encontrando estafado e morto, sorriso idiota e pernas bambas
Ao lado do arco dantes teso, ora relaxado
De alva madeira e louras penas desarrumadas.

Louca

Arranha o teto com as unhas do pé
Cambalhotas ensandecidas de golfinho ferido

Louca me enlouquece, põe-me a ver navios no ar
A nadar de costas em mar bravio

Fere as portas com unhas de gata louca
E dilacera minha aura com mordidas de cadela

Atira-se de cabeça contra o muro
Reclamando da moleza dos tijolos

Arranca-me com os dentes incisivos
O que resta do miocárdio gasto pelo tempo

Sela minha boca com os joelhos sujos de poeira
Retirada de minhas solas maltrapilhas

Fio a fio me descabela a mordidas
E raspa a careca sobrante com o tamanco gasto

Lunática me manda ao inferno
Infernal me leva às nuvens.

Destino

Faz comigo o que quer, destino.
Dá-me a pobreza eterna,
Tira de mim a saúde e a fé,
Sede duro e me nega a fortuna,
Faz-me cruel,
Tira-me o siso e a inteligência,
Dá-me dores lancinantes,
Leva-me os amigos e os favores,
Deixa-me ao relento em noites frias, destino.

Faz de mim um ermitão
Em terra sem vizinhos
Sem roupa e sem pão,
Tira-me a visão, o olfato e tato,
Leva de mim o que tenho e sonhos,
Deixa-me nu sob sol inclemente,
Seca-me a boca e leva a água, destino.

Estou em tuas mãos,
Mas dá-me a alegria
De tê-la e a seu afeto infindo,
Deixa eu contar com seu afago
Em todas as dores que me reservas.
Deixa-me, destino, a mulher que amo
E não a fere.

Expedição

Começou na ponta da língua
Escorreu pelo pescoço
Seiva escorrendo pelo tronco

Mãos nas costas
Outras mãos em outras costas

Desceu pela nuca
Auréolas rosadas, hipercolor,
A mesma língua fervendo.

Outra língua em corpo oposto.

Estala alto o dique
Que continha a ânsia.

Frenesi montanha abaixo
Alagando vale que não dorme
Gigante rijo e sedento
Arrombam-se grotas
Soterram furnas invadidas.

Na batalha suores se misturam
Líquidos e vapores de cheiros.

Fogos de artifício.

Corrente

Celacanto
Peixe encantado
No canto um canto
Encanto no canto
Um conto no canto do conto
Encantamento em forma de conto
Conto em forma de canto
Encontro no canto o conto
Desencontro
Peixe no canto
Conto písceo
Encontro entre canto e conto
Desencanto entre peixe e contra
No Tom do Zé a peixa
Encantada e deixada no canto
Sem voz de desencontro
Viva peixa de aquário rachado
Largado no canto em que me encontro
Entre o quanto e o desconto
Desconto é desfazer o conto
Desencanto é desfazer o canto
Reencanto é recantar o canto
Reencontro é recontar o conto
Adicionando pontos
Peixe n’água de desencanto
Viva peixa contra a maré
Do aquário rachado
Fazendo água no canto
Em que se escala o conto
O canto no conto do canto
Canto de acalanto
Conto um quebranto
Apronto um conto
E aponto por enquanto
Apenas o pai-de-santo pronto a entrar
Como celacanto nas águas do conto
Peixes em feixes sacrossantos
No horizonte
Madeixa entre seixos da fonte
Donde levanto e pronto

Bahias

I

Na segunda te descobri
Sob a primeira santa cruz.
Te perdi no Mucuri
Reencontrei em Pau Brasil
Entre patos e pataxós,
Prima mata e primos bichos.
De mãos dadas te levo rumo a Minas,
Desviei para o frio do planalto
Te carregando sobre a tropa.
Abrimos vilas e cidades,
Sob árvores plantamos cacau,
Colhemos frutos, papamos jacas,
Carinhanha nos picou sobre amêndoas.
Subimos ao norte, caímos na primeira.

II

A primeira veio depois da segunda:
Terra do salvador,
Negra vestida de branco,
Turbante colorido.
Te levei aos trezentos altares,
Aprendi e ensinei outros sotaques,
Ofusquei o farol com o brilho
Das lentes dos teus olhos claros.
Da de cima vi a de baixo,
Forte e mercado de negros,
Púlpito de templo e tronco de escravos;
Água verde aprisionada
Por recôncavo festivo,
Praias recortadas por edifícios.
Te carreguei, minha loura,
Pelos braços e pernas,
Entre chaminés de pó negro
E peles pretas de fuligem e Áfricas.
Saí da primeira, suas ilhas,
Tambores, turistas e comidas.

III

A terceira foi a terceira visita,
Calor no quengo, calor nos abraços,
Falar de outras gentes
Tão próximas e diferentes da primeira.
Cocada de maracujá
Vira rapadura de laranja;
Abará é tapioca,
Abóbora é jerimum,
Mãinha é mãe e mamãe.
Ainda recende a bosta de cavalos
As pedras seculares das ruas,
Possível se ver umbu no pé
E não nas latas enferrujadas da feira;
Padre, juiz e delegado
São deus, autoridade e temor.
A terceira, em sua secura,
Traz a pureza e as dores de antanho.

IV

A quarta, onde te deixei,
É de lá e quase lá,
Tão longe de lá está.
Não parece com a mãe,
Não tem pai.
A quarta o Chico corta
Com suas águas vermelhas,
Vai de Juazeiro a Conquista,
Cria uvas e bodes.
Terra que tudo tem e nada dá
Para os rubros de barro e sol
E os brancos, olhos azuis,
De sul e soja, Pampa e Pará.
A quarta ainda não é,
Faz-se no arado.
Rasga-se nos papéis dos palácios,
Sai da baixeza da várzea
Ao pico da montanha.
A quarta é estranha,
É Bahia, Minas, Goiás
Ao redor do rio
E à sombra do nada.

Vôo

Ferido sob a asa voa em círculos
E vê o mundo girar redondo
Órbitas elípticas de ambos
Em espiral infindável

A espera da cicatriz leva o tempo
Que o tempo leva em si
E os males se curam per si

A elipse se desfaz em reta
O mundo é plano enorme
A se explorado em tantos vôos
Que o tempo e as asas circundarão

Lúdico

Brincar de ser sério
Lúdica intersecção
Entre o brinquedo
E a perfeição.

Ser dos dois uma farra
Sem ter tempo de brigar,
Um instiga outro segue
Outro chama e um vai.

Jogos e decisões
Jogadores nos serões
Um impõe outro replica
Outro vai quando um fica.

Diversão e sensatez
Complemento e franquia
Outro ri quando um canta
Um se encanta, o outro guia.

Pelos Pêlos

Faço a barba e vejo os
tem pêlos como os meus.
Me impressionam os pêlos dos mortos
Os cabelos dos cadáveres parecem vivos
Quando açoitados pelo vento
Balançam os pêlos vivos do morto.

Lembro da crina do cavalo no pasto
Assassinado por picada de cobra
Os cabelos do cavalo, crina e rabo,
Estavam vivos no animal morto.

Os pêlos do cachorro atropelado
Tremulam presos ao defunto bicho
Parecem voluntariosos em dança
Na música tocada pelos ventos que mexem

Minha barba está morta
Arrancada pelas lâminas guilhotinas
E descem nas águas pelo ralo
As barbas dos mortos crescem
Estão mais vivas que a carne

Em dúvidas sobre a acentuação pela nova ortografia. Tenho até 2012 para aprender e gostar.

Mudança


Cat stairs
Originally uploaded by fofurasfelinas.
Os livros nas caixas
Como destinos nos livros
Guardados com as traças

Mãos de homens naas coisas
Coisas minhas nessas mãos
Eu nas coisas dos homens

Meus gatos lambem as patas
Meus olhos nas patas dos gatos
As pálpebras dos gatos se fecham
Como as caixas, esperam

Meu homem dá as ordens
Os homens fecham as caixas
Minha história segue meu homem
A caixas seguem com os homens

Minha vida no caminhão
A mudança em mim
E eu no avião

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

Toque

Quero teu sopro
Hálito morno
Leve como brisa
Na ponta da língua
Pós noturna
Pela fresta pré-matina
Atravessando de leve
Sem pressão, nenhuma pressa
Os nós de nós

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

Frágil

Ele me esquece para não lembrar que me despeço
Eu não insisto para disfarçar quando ele desiste
Nós dois fingimos que é fácil o mais difícil

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

Arrebol


A cortina acena leve
Vela a tarde que perdura
Nos sinais vermelhos.
É vela e leva
Tédio e medo de uma esquina,
A toca de toda minha história
Que se desterra

Faço contas. Conto-me
Coisas desta terra
Tórrida de lembranças.
Desconto dúvidas,
Pago dívidas,
Deixo o corte.

Destravo-me
Desta vida aberta sob o cinza
Céu rasgado por tuas mãos
Na minha pele lisa

É despedida em riste
Arrebatada do papel sem uso
Onde escorrem idéias em fuga
- Plenas de azul, meu léu -
Arrebentam a moldura frágil
Ponta deste adeus crispado

Fortes, na vaga da minha felicidade,
Navegam meus gatos
Nas caixas, livros e quadros
Rumo ao sertão, seu sol
Minha morada real

sábado, 10 de janeiro de 2009

Rotina


protectme jpeg
Originally uploaded by compulsaodiaria.
Jaguar domesticado - meu gato
Abana o rabo,
Boceja enfado

Sem sedução,
Um vento velho nas janelas
Vaza - sem talvez - a presença de sim e não

Da noite vazia, restos na tarde de cochilos
Flagra fatal na ilusão
Calam-se os urros do ar em flâmulas imóveis

A vida vai
A curva vem
O sono dele em vão

O tempo parou
Vou?
Fui, acabou

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Puro Sangue

Na paisagem inerte
Passeia uma era
E um olhar se perde
No passo desta tarde
Imóvel como um fóssil

Um cavalo castanho
Monta em pêlo
Meu coração selvagem
E atropela o crepúsculo
Assustado pelo estranho centauro
Raçado de músculo e sentimento
Passa aos trancos
Zunindo risos no caminho

Metade é meu homem
Outra parte é ele ainda
Mais másculo
Nos cascos e coices

Galopa por uma noite
Meu peito moído pelo tempo

sábado, 3 de janeiro de 2009

Cinza , tarde e tédio


clara_edited
Originally uploaded by compulsaodiaria.
Siesta

Bolinha de pêlo aninhada
Minha gata machucada
Amassa nas patas sua dor
No meu braço
O ninho do seu desamparo
Nossa identidade animal

Mínima

Na tarde rajada
De cinza e tédio
A gata não pensa
Sente o ar
Tão fêmea e desesperada
Menos animal mais apressada

Próxima

Seguro a cabeça
Dor do pensar
Na pele que sente
No mal-estar sem apelo
Diante dele que me quer
Farra felina sem ser fera

Sexo

Sou mulher sem ser cativa
Apenas festa sem par
Capricho
Assim mesmo
Sou aquela sem texto
Sussurro de bicho

Fujo

quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

Útilfútil


broken_heel
Originally uploaded by
fedaa.




Iludida, cobra
Desde a véspera
A dívida indevida

Víbora

Ela espera da vida
Um troco ainda que pouco
Porque é convencida

Louca

Acredita ter controle
Sobre ele - o seu amor
A crédito gravado a frio

Crédula

A cada madrugada
Grávida de sua vaidade
Estéril e vaga

Frágil

Ela sabe e mal vê
Que ele se entrega e navega
Ao lado, os braços largos de outra diva

Cega

Menos trágica, mais alegre
Menos regra, mais verdade
Menos fútil, mais útil

Toda leve, menos ela

quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

Al dente



Súbito, deságuo
Lúbrica ao cubo
No púlpito raro
Cume do teu desmaio

Aos poucos vou
Aos vôos amplos
Aos planos tantos
Eu, fada calma
Plano - ponto a ponto- plena
Antes do teu último temporal
Deste nosso ano al dente

terça-feira, 30 de dezembro de 2008

Para ti, Paraty



Sob teu eclipse fui lua
Esplêndida sem tua sombra
Na praça fui beleza
Branca e aberta sem teus limites
Na ponta da tua caneta negra
Fiquei nua sem tua trava
No peso do teu traço fui leveza
Em tua desgraça fui a graça
Nessa tua escrita construída, fui natureza
Sentimento
Sem tua noite fui meu sonho
Sem teu medo
E na praia desta manhã
Sem vento
Teu sono é meu pesadelo
Acordei mais cedo

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

Tatibitate



Falta lógica
Sobra inquietude
Na voz alta e na fala arrogante
Que insiste e desanda
Sem você se dar conta
Nesse discurso atroz
Da tua juventude agonizante
Que se afoga nos seus pontos de vista cegos

sábado, 27 de dezembro de 2008

Do amor à partida


Pinacoteca B&W IX
Originally uploaded by serlunar.
A luz vaza no vão
Da janela nua
E vaga na tela.
Raio retardado de estrela
Rastro de lua, o olhar
Repara a paisagem familiar,
Perdida no vácuo
De uma saudade prévia
Suspensa na passarela da partida

sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

Convergência



Covergência, parceria com Marcos Pontes

Ele:
Me vi em seus olhos como num espelho
Escorado na vida como em frio poste
À espera de tua chegada definitiva.
Segui seus passos, passo a passo,
Pelas calçadas frias de vida incompleta;
Abri o abraço ansiando de corpo inteiro
Enquanto seu corpo não vinha;
Apressei o tempo na ampulheta cheia
E os segundos demoraram a cair.

Ela:
Descalça e distraída ia mundo afora
Meus rastros nas ilhas, nos desertos
Eram vagos, inesperadas trilhas
Nas avenidas - veredas minhas
As calçadas eram as passarelas
Onde sorri músicas dentro de bocas vazias
Dancei transes cerimoniais, nas horas fiz hora
Vivi os dias em passeatas contra amores gastos
Sem saber, sirguei teu rumo na crista dos minutos

Ele:
Vi passar alheado e roçando
Meus caminhos pelos seus;
Senti, sem querer, seu cheiro
Alisar minhas narinas descuidadas;
Percebi ao alcance do meu toque curto
Suas costas alvas, salpicadas de querer.
O que antes era distância e nada
Tornou-se constância percebida.
Nossas rotas retas bifurcaram-se.


Ela:
Nesse mundo amplo de pequeno, zanzamos
Até que seu verso fisgou minha retina.
E se foi encontro premeditado, profecia
Ou destino aninhado em golpe de sorte,
Pouco importa. Vale o traço da tua mão
Sobre a linha da minha vida aberta
À experiência -limite e embargo
Entre o prazer da tua cadência
O toque do meu ritmo - vibra a nossa sinfonia

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

Feliz Natal

Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados,
Para chorar e fazer chorar,
Para enterrar os nossos mortos -
Por isso temos braços longos para os adeuses,
Mãos para colher o que foi dado,
Dedos para cavar a terra.

Assim será a nossa vida;
Uma tarde sempre a esquecer,
Uma estrêla a se apagar na treva,
Um caminho entre dois túmulos -
Por isso precisamos velar,
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.

Não há muito que dizer:

Uma canção sôbre um berço,
Um verso, talvez, de amor,
Uma prece por quem se vai -
Mas que essa hora não esqueça
E que por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.

Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre,
Para a participação da poesia,
Para ver a face da morte -
De repente, nunca mais esperaremos...
Hoje a noite é jovem; da morte apenas
Nascemos, imensamente

Poema de Natal
Vinicius de Moraes

Recados e Imagens - Cartão de Natal - Orkut

Recados, Gifs e Imagens no Glimboo.com

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Enquanto espero

O musgo coagulado nas fendas da calçada
E as horas escorrem pelas faixas - latitudes
Na ausência, ocos e ermos de esperança
Aqui, onde amanheço mais cedo
Espero
A bailarina aparece na tela
De lá, onde a tarde começa
Na intimidade, a alma vacila
E a vida é promessa
A conversa amena disfarça a ameaça
A hora se aproxima
Da janela, vejo a imbaúba
Árvore mãe
Abrigo da orquídea salpicada de vermelho
Sua filha
A umidade nos telhados revela
Traços de sangue no orvalho

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Stand by me

Ao meu lado, quero o presente, a verdade e a beleza discreta das ruas, do cotidiano das cidades!
Quero você cada vez mais perto
Quero a serenidade dos amigos sinceros,
A calma dos dias curtos e simples
A vida aberta e meus frutos fortes
Quero meus gatos e todos os bons abraços

Boas festas!



When the night has come
And the land is dark
And the moon is the only light we'll see
No, I won't be afraid
No, I won't be afraid
Just as long as you stand
Stand by me

So darling, darling,
Stand by me,
Oh, stand by me
Oh, stand,
Stand by me
Stand by me

If the sky that we look upon
Should tumble and fall
Or the mountains should crumble to the sea
I won't cry, I won't cry,
No, I won't shed a tear
Just as long as you stand
Stand by me

domingo, 14 de dezembro de 2008

Por um triz



A tarde invadiu a noite,
Quando partiu um pássaro
O mar bateu no ventre.

Sob a ponta do salto preso
Ao medo de tropeçar no ar
Quase fugiu um chão afoito.

Trêmulo, o coração flertava
Com um presságio:
Coágulo desgarrado da razão

Alerta que filtrou com força
O destino frágil
Agarrou a vida e esvaziou a morte
Na maré vazada que trouxe
Palmas altas nas águas das promessas,
Doces, flores e milagres de volta à casa.

sábado, 13 de dezembro de 2008

Convite



Vem todo
E sobe no meu céu.
É seu o mundo sobre cada poro

Entra quando e como sempre
Eu menos quiser, sem medo.
Forra meu pêlos com sereno

Com seus milagres, molha meu sonho
Traga minhas delícias na relva dos cílios.
Vela meu sono, num contorno de carícia,

Trisca minha língua vívida
Roça meu peito ávido
Com sua voz rouca, instiga-me.

Abre o porto e fecha a trilha do não
Sem perder a linha, satisfaz minha lira,
Ache o quase e veja no beijo, o sim

 Amy Winehouse and Paul Weller - Don´t Go To Strangers

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Vigília

Que no mesmo instante,
Tanto e tudo sejam
Desejo de ser tua
Cativa
Amante
Amiga
Para receber-te viva
Reter-me, unívoca,
Em ti.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

Restos


Distância
Assegurando esta vigília
Vaga solta que tomba.

Estrondo e lágrimas.
É trilha na garganta
Gosto de choro grosso e morno.

Silêncio
Engolido, molhado
Sorvendo sono, secando sonho.

O beijo perdido no beco
Fundo do silêncio
Que prende o ar.

No escuro do fim,
Dois gatos esperam
Sem resposta.

Restos sem rastro
De esperança sem registro, espectro
Onde pousam as patas sem passos.
 Nina Simone - I want a little sugar in my bowl

Construtor



Faz o dia aparecer
Devagarzinho e logo cedo
Enternece a vida


Traz alegria esquecida
Faz carinho com a voz
Depois, cria ninho

Faz a casa ser mais linda
Cuida da vida
Com a paz em cada passo

Assopra longe os medos
E acorda alegre
A pele do segredo

Faz a manhã feliz
E quando volta, traz a tarde
No beijo com abraço

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Entreato



Entre a tua solidão e a minha
A noite avança contra o céu
No grande silêncio aberto
Entre o teu sono e a minha vigília.

Nosso devaneio treme
Entre nossas retinas insones
Arranhadas pelo sereno.

Buscam-se nos parques, praças
Onde minha infância e a tua se encontram
Nas folhas de uma avenca,
Verde, efêmera delicadeza do alpendre
De ontem.

E nosso destino sonha de frente
Para o pôr-do-sol
Entre a minha serenidade e a tua pressa.

A brisa desfaz a bruma que embrulha nosso presente

sábado, 6 de dezembro de 2008

Sherazade

Quando tua ausência vem,
Conto cem histórias pra mim
Até acalmar a loucura do sultão
Que abala minha certeza
Até o sono ir daqui
Espantar a morte deste berço
Profano sonho, até acordar
Tuas mil e uma noites.
Era uma vez minha falta
Na dúvida do teu trono,
Te amo

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

Chachachá

No obscuro deleite
Desse teu cogito perverso
Ela chega aos saltos
Altos e finos. Levita coragem
No chachachá mais lindo.
Brinca e sorrindo, escorre
Seiva irresistível de menina
No teu sofá, onde sentado
Estás perdido, caçador de gazela
Diante dela, terna fera
A feliz mulher da vida
Da tua verdadeira terra.

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Corrente



Tua pele que me olha
Cúmplice e flerta
Meu olhar que te molha
Temporal e toca
Tua boca que me testa
Esperta e acorda
Minha voz que te acalma
Íntima e provoca
Teu sorriso que me canta
Depois do palco, no camarim
De nós dois
Onde minha alma escorre
Antes do teu aplauso final
Santana - Samba pa Ti

Imagem: Pearls

domingo, 30 de novembro de 2008

Malazarte


Flutua nos olhos,
Brilha na pele
Tua alegria que fere
Brios e zangas.

Tua infância levada
Deslizou com a serpente
Do teu tempo esticado
Teu amor pelos cavalos
Teu mar solitário
Teus sentidos amortecidos
Teus venenos purpurina
Tua coragem bêbada
De medo solto na fumaça.

De éter foi teu flerte
Tua sina de rebelde
Tua vida contra morte
Teus anjos da guarda exaustos
Teu sorriso presente.

É terna minha confiança, malazarte,
Ao ver-te rasgar tuas crises
E furar tuas dores,
Aprendo contigo
A quase morrer e voltar
Eterna criança sempre viva.

sábado, 29 de novembro de 2008

Poema Dia - Um poeta a cada dia

Poema Dia, projeto de Victor Barone, é ousado: reune 28 poetas e escritores comprometidos a adotar um dia do mês e, neste dia, postar um poema ou mini-conto de sua autoria. O objetivo é criar uma rede na qual possamos beber das fontes de cada um e divulgar o trabalho de todos.

Dia 1º/12, segunda-feira, começamos, esta aventura que é

Paratexto

A palavra alinha a letra
A letra lavra a língua
A língua age em fala
A fala fixa o signo
O tom sonoriza o significante
A sintaxe sintetiza o som
Forma a frase, traça a imagem
Faz do rastro o significado
E grafa a paisagem

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

Súbito



É o olhar.
Ele se perde
Nas gotas gordas e moles.
Depois se joga
E explode desencanto na calçada
Desta tarde que chove e me invade

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Credo Sem Graça



A tarde espreguiça
Nos passos da lucidez
Que se afasta desse destino
Laçado nas nuanças
Dessa curiosidade malsã
Escondida nas saias
Nas dobras dessas moças
Na sanha
No interesse disfarçado
No sorriso amargo
Desses falsos titãs
Estacionados na ressaca
De seus lapsos
Sulcados nas esquinas
De seus discursos sem alma
Nem sentido.

Chove na praça
Ao som da ária clássica,
Passantes cedem à saga,
Senhoras vencem a insônia
Rezando seus terços de aço
Desfiam sonhos sagrados
Sem graça.
E sobre o sabre do silêncio
Faz frio
E sombras sussurram
Salvem-se

terça-feira, 25 de novembro de 2008

Íntima



Trago a outra
Que sou eu
Presa na face
Rasa do espelho

Sem máscara
Mulher na orla
Escorre dos olhos
Pela fresta da frase

Solta no oco
Fundo de mim
Sem asas
Mostro-me esta
Íntima e prestes

Prêt – à – Porter

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Diva

leni

Diva é aquela que faz com que se prostem à sua frente, quedados por seu talento, carisma e força.

Nasce festa, cresce aos saltos,
Roça de leve quando passa,
É de éter.
Quando pisa, rasga a vida,
É lava de libido.
Escorre brilho pela fresta
Do olho da outra.
É espelho
Quando é a mesma.
Quando veste seda e renda,
Coleira de pérola,
Brinca com a pele nua.
Quando quer mostra o gênio,
É deusa.
É altiva, quando vadia.
Diva é vento,
Leva o medo e traz a graça.
Em cada poro é alegria.
Quando é triste, faz troça,
Esconde a dor atrás dos dentes,
Dissimula meia vista
E mostra a língua.

Leni Riefenstahl,

A Deusa Imperfeita

Ela era a diretora preferida de Hitler, que, dizem, até se apaixonou por Leni, a mulher. A vergonha do holocausto manchou-a indiretamente, foi discriminada em sua época e a história legou para ela uma herança de preconceitos.
E foi, também, um dos maiores gênios da história do cinema...

sábado, 15 de novembro de 2008

Dry Martini



Passos de pressa
Encerram o abraço
Do dia com a praça
E passantes tropeçam
Nos dejetos da tarde
Laçados no mesmo desejo,
Satisfazer, sem medo, a sanha
Na calçada desse crepúsculo
Cúmplice e sedutor da diva
Vestida de preto e segredo,
Sátira e algoz da lucidez
A noite, antes de descer sobre a cidade
Assopra a seda da moça
E faz supor força doce
No viço do garçom
Que lhe serve taças sôfregas
De martini seco gelado sem gelo

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Sem Querer


Sem que eu peça
Teu rosto passeia fora da taça
Desloca o ar, sobressalta a boca
Põe minha certeza de ponta-cabeça

Sem que eu espere
Estremeço quando lembro
Do olhar vazio, do canto sem enlevo
Do cheiro de medo

Sem que eu impeça
Temo que a felicidade se mexa
Fuja ao menor movimento
Antes que eu te esqueça

Sem que eu queira
Soluço, enjôo, ciclo
Parto, espasmo, abraço,
Beijo, depois fico imóvel em mim

Sem pedir, duvido
Sem impedir, aconteço
Sem esperar, vacilo
Sem querer, termino

Imagem: Cruel, Deborah Colker

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Aurora noir(e)



Entre as telhas, sereno
Jaz um resto de esconde-esconde
Que brinca de decifrar armadilhas primevas.
É quebra-cabeça impreciso que rói
A parede da noite de uma criança

As sombras são leões com jubas de folhas
Nos olhos de espanto azul franzido
O prazer da fera em plena fuga é ele.
Rei à espera na rede do terraço ancestral
A presença da sua ausência é caos

Na areia da vanguarda, vacas mansas flertam
Com seus heróis pescadores que espantam
As gaivotas vorazes do pensamento.
À luz da estrela da manhã, o primeiro cigarro
Aura noir(e) no alvorecer

Ela avança lãs enroladas nos tornozelos
A cabeça levemente inclinada para esquerda
Nas mãos o calor do café acorda a dúvida.
Não sabe o que mais teme ou deseja ser
Tentou ficar muito quieta

Imagem: Hiroshi Sugimoto
Música: Chopin Nocturne

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

Sem pressa nem tempo




Sem pressa nem tempo,
Espero o calor lamber as horas
Que passam em delícias,
Enquanto morre uma tarde
Uma boca engole o dia,
Morde meu juízo.

Sem dor nem pressa,
A manhã nasce à força do fundo do relógio ávido de desejos,
Por onde escorre o susto. E o risco arrepia
Grafite de musgo no muro da têmpora.

Sem tempo nem dor
Pulsa um rastro de eco – escuro do meu grito.
No paço de lembranças, desmaiam retratos ao vento
Desmanchando em migalhas o museu ultrapassado,
Quando a ponta de um trovão explode a vida em cheiro
E sabores nítidos.

Sem dor nem cansaço,
No sinal vermelho, uma esquina pára.
Corpos tomam o fôlego das narinas tesas
Pelo ar que roça de leve inteiro o dorso dessa busca sem descanso.

Sem drama nem medo,
No quebra-mar dos olhos batem sopros. E voltam cantos.
Na minha garganta, uma sereia desliza
No sal da saliva sumo e gosto da pele e mais.
Um gesto solta o centauro.

Luli e Lucina - Amor de Mulher


Imagem: My Bed, Tracey Emin, 1998

Compulsão Diária, outubro de 2008.
Para Guto Leite
(grande amigo, tremendo poeta e mestre generoso)

Não sei se foi



Não sei se foi o soco do piso
Na retina o ar tremeu de calor

Não sei se foi o prazer perto de mais
Medo do frio dos museus pós-modernos

Não sei se foi o desespero
Do mais gozar - frenesi - do mais comprar

Não sei se foi o reflexo dos passantes
Em feitiço na vitrina, eram fantasmas

Não sei se foi a lembrança da tradição
Do hospital desmembrado nas três esquinas

Não sei se foi a visão do quarto
Era ela quase morta no dia da passeata

Não sei se foi esse começo de verão na primavera
A felicidade da menina distante, a mulher bailarina

Não sei foi a lama na campanha
Os dois candidatos empalados nos postes do preconceito

Não sei se foi a decadência da avenida
A falta da falta daqueles que faltaram

Não sei se foi agora que eles são peso morto
Presença da ausência inesperada

Não sei se foi esse adeus na ponta da língua.

Foi o tronco marrom sob a sombrinha
O olhar no sorriso daquele toco
Foi a dor peregrina sem membros
Foi a boca e a sede do menino-torso
Foi a letra na caixa de sapatos
Daquele texto triste
Pedido de amor - muito mais ato
Menos esmola, um nada de pena
Agora sei, foi o mesmo descaso.

Ele e eu amputados
Foi ele sem movimento
Minha mão sem gesto
Foram saudades súbitas
Dos horrores destas ruas
Deste vazio nas sarjetas
Dos excessos desta minha cidade.

Compulsão Diária, outubro de 2008

sábado, 25 de outubro de 2008

Efêmero



Este poema foi editado com arte e generosidade de Thiers, meu poeta e grande amigo. Ferinha, minha!

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

Antes, depois, agora e sempre



Eu sempre te quis
Antes de saber de mim
Das coisas minhas que tenho em ti

Essa ternura em carne viva
Do teu coração onde minha lua gira
Na tua sorte que me pega e convida

Para que minhas manhãs comecem nas tuas
E as tardes tuas e minhas
Caiam em nossa noite única

Eu sempre te quis
Depois de saber de ti,
Das coisas tuas que tens em mim

Esse desejo de amor de alma
Do meu corpo onde tua pele fica
Na minha sina que te segue e avisa

É teu meu presente que chega
Na rua da casa da tua esquina
Que fizemos minha e tua

Eu te quero agora
Mais ainda, por saber nossas
As coisas de cada um

Eu te quero sempre meu
Para que me faças tua
Sem deixar de sermos dois

*Imagem:Barbara Krueger, Power Pleasure Desire Disgust, 1997 Deitch Projects, New York

domingo, 12 de outubro de 2008

Lançamento D'Acolá - Livro de Marcos Pontes



Local: Boteco do Ferraz
às 19 horas
Esquina da Rua Mário Ferraz com Rua Tabapuã - Itaim Bibi

O livro D'Acolá, de Marcos Pontes, reúne um conjunto de contos, ou narrativas curtas, caracterizados por fina ironia e crítica a valores muito característicos de nosso tempo. O autor localiza seus personagens, de distintas origens e idades, nas mais diferentes cidades e regiões do país, como a compor um quadro nacional, embora a maior parte dos conflitos possa ocorrer a qualquer indivíduo em qualquer lugar.

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

Tardes de Sabá



Cheiro de ervas nas tardes de sabá
Consagradas ao profano.
Sumo de maçã
No cálice sagrado
Ela metade criança, outro lado desejo
Ele - pleno - despeja anseios.
Dois cataventos e um rumo
Ancorados na paisagem do tempo.

 Santana - Samba pa Ti

domingo, 21 de setembro de 2008

Paratexto




Paratexto

A palavra alinha a letra
A letra lavra a língua
A língua age em fala
A fala fixa o signo
O tom sonoriza o significante
A sintaxe sintetiza o som
Forma a frase, traça a imagem
Faz do rastro o significado
E grafa a paisagem

Paratexto é limite entre os contornos do texto e o que o institui como obra.
Amelia, desafio à percepção visual do espectador com singulares efeitos luminosos, movimentos de câmera e coreografia plena, complementa o texto.

imagem:Regina Silveira, Caro Duchamp

sábado, 13 de setembro de 2008

A fragilidade é sua arma

A fragilidade é sua arma,
Mulher covarde! Trôpega, arrasta
Cordão de imposturas, compaixão seqüestrada
Violenta, finge ser quebrada e pende a cabeça ao lado
Entorta para esticar o laço.
Invejosa, elogia e cala para brilhar.
Exige segredo para fazer chantagem
Estraga o solo, erva danosa com seu não saber calculado.
Nada consegue, mas tudo tem.
Vive às custas da impostura perversa
Cava seu buraco: Vem cá! Estende a mão para o abismo de sua voracidade
Fera acuada simula estar morta.
Nega um copo de café enquanto engasga na fonte
Inútil, sabota projetos para roer seus restos.
Seu olho atira injustiça congelada
Escondida, revela a farsa sem querer.
O tempo - melhor amigo da verdade –
Casado com a entrega e a amizade armou o bote.
Arrancada de si mesma, faz máscara de choro aguado
Lágrimas de raiva contida escorrem abjeção
Força a piedade sem culpa. Esmola na careta de súplica.
E eu? Nem vejo mais o estertor desse bicho de nojo.
Troquei a fechadura, soltei as crianças presas em sua teia,
Lavei as paredes, replantei o jardim, salvei as duas flores mais limpas
E preparo a primavera.

terça-feira, 9 de setembro de 2008

Sem Fim



No sem fim de mim
O poema, em queda, desaparece
Na boca desta manhã inquieta.
Minha poesia desafia teu rito,
Enquanto meu verso espera teu ritmo

No sem fim do texto
Tua prosa circula misteriosa,
Meu pensamento desconfia,
Tua palavra vaga na minha frase.
Depois, brilha na tua fala clara

No sem fim de nós
O tempo traça a fenda,
Rasga a vida e explode o dia
Dentro do eu que resta
Perto do tu que és meu

*Imagem: Richard Serra at MoMA - Band (2006)

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

Pontyiana



É o sol dentro de mim
No céu, é o vermelho
Carne do corpo e das coisas
Sentinela do sensível
Parto do ser bruto e do espírito selvagem
Visível dentro do invisível
A escrita quebra o silêncio
E o pensamento interroga o impensado
A cada plenitude, um vazio
No tapete tecido pela linguagem



Barnett Newman - Vir Heroicus Sublimis - 1950, Museum of Modern Art, NY

terça-feira, 26 de agosto de 2008

Celeritas



Te leio, luz no vácuo
Te quero constante
Sentimento em velocidade
Te espero, segredo atômico
Entre ondas sonoras
É saudade


crédito da imagem:
Fuerzabruta, De La Guarda, NY

domingo, 24 de agosto de 2008

Efêmero



Na janela o vaso acolhe o passo do gato
E amortece o som do guizo
Por um triz, o botão de lírio não acorda

Nina Simone estilhaça a espera
É aviso!
Longe daqui naufraga um navio

A flor explode no bocejo
Just Like A Woman cruza o silêncio
E diz - ninguém sente dor

A bailarina arma o grande salto
Meu coração se fecha e o chão se afasta
Depois, passa.

* esta é uma homenagem. não está em edição.
Ontem, o sábado foi em suspense porque não era post.

domingo, 17 de agosto de 2008

Desconversa

Seu interesse pela entrevista

Miro pela fresta dos seus versos retesados
desejo pelo diálogo dos textos

sonho

no balanço das suas palavras
meu pensamento vacila

quente

Um estalo no seu vaivém noturno
Você volta frio
Estica nossa primeira frase

sua fala fértil corta o nexo
Falo que faz falhar este começo

domingo, 10 de agosto de 2008

Alma

Em você o que sinto é um mar
Denso, terno e calmo
Avança
Enquanto sonho

Traz palavras eriçadas
brancas e limpas
Rumor de afeto que me acorda

Na praia, lusco-fusco agora
Desconfio
Será que vejo?

Sinto

Seu texto
No horizonte do meu colo
traça a cor do dia
Faz aurora

Sua frase abre a sintaxe
onde me perco
Enquanto vago no seu ritmo
Desejo

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

Fuga (ex- Calmaria)

Em edição! Não estava bem com o poema, reli comecei a ver muita confusão, versos soltos, sem lógica. Pode ser modificado pelas sugestões e leituras críticas dos leitores e amigos. O título é Fuga, por enquanto, por ser o mais adequado até o momento. Ex- Calmaria , pq é muito mais uma retirada, uma interrupção.

vazante calculada
(pre) amar no contra-fluxo

Fuga

mergulho no marrom
-véspera do vermelho-
onde me refaço

na próxima hora

naufrágio evitado
singro serena
toccata turquesa
virtuosa

Em êxtase navego a água azul
na brisa do instante

beleza recuperada
que fiz sem promessa
Do que quer que seja

Pode ser nada.

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

Interlíngua

Ce suis je
sujeito
Je suis cela

Na floresta
Perdida
Je suis chat

Nesta flor está
Tudo e tanto
cuidado
que o contato

todo

num pulo
se perdeu
flor que resta

sou

detrito
abjeto objeto
moi, je crois

mar
estrela inquieta
sou isso

enigma
noite quente
lábil
cifra em suspense

entre

a língua e o mundo
-intersentida-
Sou toda narrativa

quarta-feira, 30 de julho de 2008

Pergunta/6

-Pergunta!
(você me pede)

- Vamos continuar?

mergulhado
no oceano da tarde

- concha acústica para o silêncio-
a madrugada ampla traz
frio e eco

você penetra
aquece
minha respiração insone

Vigoroso
depois do sonho
você me atrai para fora
do sono

marca o lago
assopra poesia

Semblante frágil
disfarça o pulso viril
enlaça meu colo

cerca nossas bocas

todo meu corpo
oscila neste canto
- poema e cama -

calmo e vago
louco e vasto
som e abrigo

armadilha absoluta

atônita recebo sua gula
- toda, tanta e tonta -
esfola e imola meus orgãos

seus ossos de homem
contra os meus
de súbito recuam do ato

- Quer me ver?!

nesse hiato penetra
claridade de céu
que lhe ofereço
desta face
a dúvida

Nós?! Dois
sorrisos lights
desatamos línguas
deslindamos versos

Mal rompe a manhã
lutamos corpo a corpo
com as sobras

das palavras
refazemos
encantos desfeitos

Você, poeta, risca
na brisa edifica
o projeto

Aprendiz, construo
lentamente
solto o tema na carne
sorvo o ponto

Todo o tempo
no seu corpo
há muito tempo

- Pergunta !
(você insiste)

- Vamos continuar?

Pergunta-5

- concha acústica para o silêncio-
a madrugada ampla traz
frio e eco

você penetra
aquece
minha respiração insone

Vigoroso
depois do sonho
você me atrai para fora
do sono

demarca o lago
assopra poesia
Esquece
a morte do cisne

Semblante frágil
disfarça o pulso viril
enlaça meu colo

cerca nossas bocas

todo meu corpo
oscila neste canto
- poema e cama -

calmo e vago
louco e vasto
som e abrigo

armadilha absoluta

atônita recebo sua gula
- toda, tanta e tonta -
esfola e imola meus orgãos

gruta
fértil de anjos
varados de prazer

seus ossos de homem
contra os meus
de súbito recuam do ato

- Quer me ver?!

nesse hiato penetra
claridade de céu
que lhe ofereço
desta face
a dúvida

Nós?! Dois
sorrisos lights
desatamos línguas
deslindamos versos

Mal rompe a manhã
lutamos corpo a corpo
com as sobras

das palavras
refazemos
encantos desfeitos

Você, poeta, risca
na brisa edifica
o projeto

Aprendiz, construo
lentamente
solto o tema na carne
sorvo o ponto

Todo o tempo
no seu corpo
há muito tempo

domingo, 27 de julho de 2008

Pergunta/4

Olá, depois de ler os comentários , aceitei as sugestões de Mimi e Dora. Conversei com Guto Leite e Sérgio Franck e modifiquei editando. Esqueci da sistemática;)) Então, não fiz como das outras vezes.. Falha minha, desculpem. É que aconteceu diferente. Fiz umas 4 edições, talvez mais. Deixo aqui assim e ainda modificarei, quem sabe? Está aberto à intervenção.

-Pergunta!
(você me pede)

- Vamos continuar?

Homem fatal
multiplica
em mil graças
reflexos azuis
nostalgia de horizonte
olho mergulhado
no oceano da tarde

- concha acústica para o silêncio-
a madrugada ampla traz
frio e eco

você penetra
aquece
minha respiração insone

Vigoroso
depois do sonho
você me atrai para fora
do sono

demarca o lago
assopra poesia
Esquece
a morte do cisne

Semblante frágil
disfarça o pulso viril
enlaça meu colo

cerca nossas bocas

todo meu corpo
oscila neste canto
- poema e cama -

calmo e vago
louco e vasto
som e abrigo

armadilha absoluta

atônita recebo sua gula
- toda, tanta e tonta -
esfola e imola meus orgãos

gruta
fértil de anjos
varados de prazer

seus ossos de homem
contra os meus
de súbito recuam do ato

- Quer me ver?!

nesse hiato penetra
claridade de céu
que lhe ofereço
desta face
a dúvida

Nós?! Dois
sorrisos lights
desatamos línguas
deslindamos versos

Mal rompe a manhã
lutamos corpo a corpo
com as sobras

das palavras
refazemos
encantos desfeitos

Você, poeta, risca
na brisa edifica
o projeto

Aprendiz, construo
lentamente
solto o tema na carne
sorvo o ponto

Todo o tempo
no seu corpo
há muito tempo

algo em você
se expande
grande, grande

enorme

alarme em mim
meus olhos planam
conversamos ex-segredos

de onde me vejo
duas
uma renuncia
rói nome, apaga rastro

a segunda deseja lábio
afeto e cio
lânguido desmaio

- Pergunta !
(você insiste)

- Vamos continuar?



* Este aqui está carne crua demais. E resolvi colocar assim mesmo, porque confio e tenho gostado tanto da experiência que deu mais coragem, ainda, de mostrar meus erros. Por favor, leitores e leitoras mais do que queridos e queridas. Todos adorados, por favor, interfiram muito. Este precisa sair comme il faut, ok? Conto com todos e todas.

sexta-feira, 25 de julho de 2008

Resgate

Jogo rápido
cena repisada

fase frustrada
flagra teu fogo
fraco

Um choro sem gosto
vem frio
por trás do soluço

ressaca de frases
restos de versos na orla do sono

tua palavra

abre uma ostra
- duas conchas -
uma fila de letras tépidas

rastros de inverno

sal e areia
disfarçam gestos

sua mão arisca
lixa
raspa
acha meu tato

Amanhece o texto

sexta-feira, 18 de julho de 2008

Instinto

Olhos verdes
jade e preto
Guarda-me, gato
anjo em pêlo
rajado

instinto e candura
nada sabe
da morte
- a risada

Músculos relaxados
abana o rabo
boceja enfado

discurso mudo
pede-me colo
carícia
toda ternura

Meu jaguar domesticado!

Perdida e sem palavra
no quarto
desgarrada
mostra-me o caminho.

Seu sorriso é sílaba
seu ronron é sorte?

domingo, 13 de julho de 2008

Na Estrada - versão definitiva

Nem dormiu, atordoada.
As rimas em tumulto
mal sabe acalmá-las
nas palavras amotinadas.

Segue paralela ao som
Fluxo forte sem pulso
o ar aos urros entre as sílabas
desmantela ritmos e amplia dissonâncias

Ventania nos versos sem compasso
A boca engole o frio desses sopros
cospe o gelo do fonema soluçado
onde o escuro é mais escuro

Tragada pela palavra, cai
Vontade de lágrima e letra
Alaga-se na avalanche de signos
Escreve o tédio e encharca a margem

Na madrugada, perde-se na estrada.

O poema anêmico em surto
cega faróis em fuga
vai solitário na noite insone.

A vida vai, a curva vem e o nome dele em vão.

* Muito obrigada a todos que vieram e fizeram sugestões, leituras críticas e ajudaram na construção desta "estrada". Resolvi colocar o ponto final aqui. Outros textos virão e, desde já, e é meu desejo de que, na medida do possível, todos participem deste processo rico e divertido sempre.
Bom domingo!