terça-feira, 14 de abril de 2009

Rasgo

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Salta, gato
Alcança o topo
Do muro, passo
E rasgo nós,
Meus dedos

Nos tijolos desnudos
Do musgo, quero o veludo
Enlevo e a tarde nem vem?

Vai e leva
Medo ao poço,
Este roxo
Aberto no céu da pele
Deste outono
Insone, molhado

Gotas, gorgeios claros,
Cedo no meu telhado
Chove, chove, chove

Sem alarde
Teu pelo aquece
Dentro. O endereço
Da madrugada onde
Os flancos ardem
Brutos meus absurdos,
Eretos, desesperam
Nas paredes mofadas
Sem alarme, árvores esperam

E dorme a cidade

Parto,
Renasço adormecida
Nos braços do homem
De quem sinto fome
Quando a noite vem, acordo
Ele dorme

Imagem :CLOSED DOOR WITH MUSK
©
Ehcle Dreamstime.com

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domingo, 5 de abril de 2009

Noite

No hiato das palavras
Sinto o verbo escorrer como sangue
Por entre os dentes trincados.

No tropeço da dança
O enrosco de pernas bêbadas
Por entre mesas amorfas.

No trinado do desafino
Queimam os tímpanos calejados
Em notas caídas ao léu.

Vejo a noite esvair-se
Lama negra pelos bueiros pútridos
Por entre passantes.

Vara a madrugada
O vago lume de estrelas pálidas
Cansadas em velar loucos.


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Desperto

Rasgo a noite
Rasgo o lençol negro da noite

Acordado como anjo
Notívago anjo de altar

Procurando nas paredes
Procurando ver nas negras paredes

Uma sombra
Uma branca sombra da cor dela
Que não o é
Que não é branca da cor da sombra

E não vejo
Não a vejo, nem à sombra

Viro a noite sonhando
Viro a noite sonhando com olhos abertos
Para fechá-los pela manhã
Para fechá-los cansados pela manhã inútil


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quinta-feira, 2 de abril de 2009

Joguinho

Clareia dia
Navega mar
Mora lar
Pula drama
Brinca bola
Chuta sola
Deita cama
Senta cadeira
Queima lareira
Escorre pia

Coaxa jia
Apaga noite
Apanha açoite
Come fruta
Esconde gruta
Penteia pelo
Carimba selo
Joga baralho
Caminha atalho
Dorme apatia

Troa bateria
Explode som
Degusta bom
Explica fala
Olha olho
Molha molho
Acorda sol
Anota rol
Agasalha fria


©Marcos Pontes
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quarta-feira, 1 de abril de 2009

Combate

A mão escorrega nas ancas
E os olhos miram a nuca,
Peito e costas se roçam
Pas-de-deux

Moderna dança horizontal
Antiga
Sobre e abaixo de panos,
Bandeiras brancas de entrega
Mis-en-scéne

Quatro pernas se enroscam
Judô, sliva e ruídos
Estalo de línguas em duelo,
Suor, seiva dos corpos
Lutte martiale

A entrega se dá
Mútuas rendições
De combatentes suaves
No enrosco dos dorsos
Fatigados e felizes
Grand finale


©Marcos Pontes
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Fantasmas

Celeste valsa de almas
Entre nimbos e estrelas
Vagueiam soltas caravelas
Quimeras barcas fantasmas
No caminho iluminado
Pelos lumes piscantes astrais

Espectros nítidos à luz
Dançam ao som de ninfas
As flores mudas e fadas
Sobre as cabeças e ombros
Que carregam Atlas nas costas

À guiza de sombra
Goza de cara assustada
A luz que guia os mortos.
Fala alto em sussurro
Aos ouvidos moucos
Roucos grunhidos perdidos

Presente e passado passeiam
Ante os olhos e por trás
Escondendo-se nas vontades,
Absortas em choros,
Gargalhando às escuras
No assombro da vida,
Estrada perdida no éter.


©Marcos Pontes
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domingo, 29 de março de 2009

Armadilha


Puxada de Rêde
Upload feito originalmente por Iraildes


Na brecha entre as telhas,
Brinca de esconde-esconde,
Um resto que decifra
Primevas armadilhas

Impreciso, o quebra-cabeça rói
A parede da noite de uma criança
Sem rosto

Refletidas nos olhos de espanto azul franzido,
Sombras são leões com jubas de folhas
À espera, na rede do terraço ancestral
É seu pai
- Rei da presença na ausência –
É o prazer
- Fera em plena fuga -
É fúria
- Caos que devora uma infância

Se na areia da vanguarda, vacas mansas
Com seus heróis pescadores ainda flertam,
As gaivotas vorazes do pensamento,
À luz da estrela da manhã, fazem querer
O primeiro cigarro, rito atávico,
Pito dos antigos escravos

Ela avança entre lãs enroladas nos tornozelos,
A cabeça, levemente, inclinada para esquerda
Não sabe o que mais teme ou deseja ser



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Entreato


mooi's lamps
Upload feito originalmente por Matteo Tarenghi

Entre a tua solidão e a minha,
Avança a noite contra o céu
No grande silêncio aberto
Entre o teu sono e a minha vigília,
Nosso devaneio treme,
Entre nossas retinas insones,
Que o sereno arranha,
Nossos planos
Buscam-se nos parques, praças
Onde minha infância e a tua se encontram
Verdes, efêmeras delicadezas,
Feito folha de avenca guardada
No alpendre de ontem

E nosso destino sonha de frente
Para o pôr-do-sol
Entre a minha serenidade e a tua pressa

A brisa desfaz a bruma que embrulha nosso presente



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Móvel


Non ducor, duco
Upload feito originalmente por
fabio stachi


Pela fresta, escapa uma avenida
Congestionada
Por infância de manhãs frias,
Noites quentes, sempre à deriva
Madrugadas insones, quando tudo e tanto
Se perdia

Meio-dia deserto,
O dia inteiro multidão,
Greve e passeata,
Encontros, pressa,
Despedida e boas vindas

Na esquina, chorava um quarteirão
E tardes de abril fugiam,
De fuligem, chuva e mau humor,
Para dentro das livrarias

Agora, pela porta aberta,
Entra, assustada,
Uma vida de espaços,
Cheia
De sei? Não!

E de saídas para o diferente,
- Bom dia!
Que resvala na rotina
E, vivo
Em devaneio,
Termina



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quarta-feira, 25 de março de 2009

Viagem

Move-se preso ao cais
Num vai e vem infindo
Balanço que não nina.
Gira o globo em seu redor
E, como tudo, é centro,
Borda e periferia
Do universo em voltas.
Não para o cais que segura
Nem as marolas que agitam.
Na proa, marujo por vezes atento,
Noutras, sonolento passageiro;
Após a popa
Marés percorridas ainda vivas
E outras mortas nas lembranças.
Segue a nau singrando águas
Abertas por quilhas como navalhas
- ilusão de nave estanque –
Deixando rastro olvidável,
Horizonte que não chega à vista.

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Grito

Ensina-me a falar alto
Quando o grito é para dentro
E reverbera no oco do crânio,
Solitário canto gregoriano

Mostra-me o jeito certo
De cantar antiga canção
Que fala de amigos e amores
Enquanto à boca chiusa eu falo

Dá-me aula de como dizer
Que os gestos também ocultam
Não traduzindo o que a alma berra
Em sons ectoplasmáticos surdos

Preciso que me mostre claro
Como dizer, gritar, urrar
O que bole cá dentro
De tanto amor que lhe tenho

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terça-feira, 24 de março de 2009

Desejamento

Querer ao maço
Desejar exponencialmente
Na infinitude do desejamento
A eternidade da amoração

Apaixonar-se por segundamente
Pela mesma mulher
E senfinitamente dar-se

Com a eternitude
Da benquerência mútua
A felicitude oceaniza-se
De margem a margem
Da universidade dos dois

É a amoridade incontida
Na limitude de cada um
Somada com a do par
Fazendo-se prasempremência


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Sacro

Acre o ocre do altar
Em que santos de argila e cal
Ignoram o milagre diário
De se viver na barbárie moderna
Da violência gratuita

Ácido ócio da santidade
Imposta por humanas rezas
Irradiadas no silêncio da fé
De déspotas com mitras
E poderes divinos pretendidos

Vítreas vontades nas mãos
De quem diz ter caminho seguro
Para o trono dito dourado
E porta-voz do grande chefe,
Prepotentes homens sagrados.


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Teimosas

Céleres palavras
Cavalgam barulhentas
Reverberando agudas e graves
Pelos labirintos inconclusos

Passeiam sem sentido
À procura, de liame
Bóiam, flutuam quebradas
E vazias de significado
Confundem,
Destroçam versos
De quebra-cabeça insolúvel

Forçam o parto que não se dá
E corcoveiam chucras, indomáveis
No útero das idéias inacabadas,
Embolam-se e não se tocam
Sem junção, à deriva
De rimas disjuntas

Insistem, essas caprichosas
Na função fantasmagórica
De assustarem o falso autor
Em sua teima de poema e prosa.


©Marcos Pontes e Beatriz Mecozzi Moura
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terça-feira, 17 de março de 2009

Passos noturnos


Traffic, upload feito originalmente por Lala Mártin.

Passos pingam nos ouvidos
Ávidos da menina assombrada
Por figuras atávicas

Os saltos na madrugada
Invadem o silêncio infantil
De sonhos quaisquer
E ecoam nos ladrilhos
Do solo cerebral

Mulheres de outras eras
Encantam a criança
Desencantam os segredos
Vigiam as noites
E seguem vida a dentro
A acompanhar a mulher

Tacão nos mosaicos do solo
Reverberam e assustam os sonos
Refletem nas paredes escuras
Na falta de luz se escondem
Assustam e confortam
Com a presença vigilante
Dos ancestrais que não dormem.

segunda-feira, 16 de março de 2009

Cedo?


Destino - Destiny, upload feito originalmente por osbedu.

Foi aqui na minha rua.
Era manhã cedo,
Eu andava em linha reta
Feito um trem de bem
Com seus trilhos
E nos meus dentes, o vento
Roçava mais um projeto

Sol macio,
E o perfil do gato na janela
Cheirando o vento,
Mostrou enfado
Espreguiçou enigmas
E desviou o olhar da vida
Onde a morte faz segredo

Minha pele, molhada pelo tempo,
Perguntava se era hora,
Se era bênção
Repetir o engano,
Insistir no ato de cumprir
Fados atados ao pulso
De um destino inerte

Os meus olhos presos
Viram monstros
Nas fraturas da calçada,
Urrando avisos

Minha boca se encheu de medo
E cuspi o plano armadilha
De meu querer sem desejo

₢ Compulsão Diária

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domingo, 15 de março de 2009

Dia a dia

Enraizada a vida se espalha
Toma a cama e as ruas
Sobe pelas pernas e paredes
Se encastela nas cãs e nas torres
Veste-se de anáguas e armaduras
Sacia-se nas fontes e nas coxas
Afoga-se nas salivas e nos mares
E renasce.

Alimenta-se nos banquetes e latrinas
Salta dias e muros
Beija bocas e solos
Lambe pedras e colos
Arranha peles e riscos
Escreve cartas e destinos
Queima cartas e a si
E renasce.

Apela aos santos e carrascos
Enamora as fêmeas e as carteiras
Celebra nascimentos e loterias
Joga sortes e desejos
Pulsa dentro e sobre navalhas
Olha olhos e nucas
Rasga entranhas e papéis
Enforca-se em vigas e labutas
E renasce.

Aleija pernas e cérebros
Casa casais e umbigos
Banha-se em banheiras e campos
Colhe flores e tempestades
Corre em ruas e relógios
Deita-se em redes e berço esplêndido
Descasca frutas e mágoas
Perdoa dívidas e dúvidas
Cobra dívidas e incertezas
Morre em si e esquece
Até não mais renascer.


₢Marcos Pontes
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Dia Branco

Manhã de cloro
Claro e inodoro sol
Lástima de quem planta
Ócio de veranista
Alvo dia que rebenta
Do útero da madrugada
Branco nasce da negra
Matina albina
Das entranhas da noite

₢Marcos Pontes
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sábado, 14 de março de 2009

Fauno Caravela



Delícia recíproca crua
Ela lhe pede
- Conheça-me!

Clarins! E os estares são quases.
Ela no plano do ainda ser
E ele já é tão ela

Comunhão sem se saberem

Ela pressente enigmas,
Vestais envoltas em véus-cílios
Sob o vão do seu olhar vasto

Viola minha intimidade que desvelo a sua,
Fauno insone, a galope,
Anuncia tempestades e flecha a calmaria,
Saltando sobre seus amores vícios

Ampla, a voz dele
É flauta de atravessar vigília,
Acossar sentimento.
Fala fleuma de espirrar vácuos,
Cavalgar gemidos

Fauno - Caravela, leva-me,
vestida num parangolé,
Na sua vela sem leveza?

Da sua loucura, viajem sem meta,
Quero seu float e flash no esquecimento,
Partida com sabor doce-amargo de aventura
Fresta de fuga sem fiasco



Imagem, a partir de, Luiz Fernando Guimarães veste PARANGOLÉ CAPA 23, M’Why Ke, Nova Iorque, 1972



© Compulsão Diária
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quarta-feira, 11 de março de 2009

Sol

A seda áspera da tarde quente
Roça o couro
Arranha como palma de espinho
Reluz em ouro
Aquece dentro e queima fora
Reflete claro
Ilumina até mesmo a sombra
Cintilante astro


©Marcos Pontes

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terça-feira, 10 de março de 2009

Grão de Domingo




Pão Caseiro, porRose Gomes

Anoitece.
A rua, vestida de bronze,
Acorda acariciada pelos passos
De quem volta e vai

No final do dia,
Todos os dons e perdas
Não se querem danos

Preferem ser pão, tocados pelo sol,
Astro alimento luminoso
- Grão de domingo -
Entre sarças,
Em cada entardecer,
Escondidos

₢ Compulsão Diária
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segunda-feira, 9 de março de 2009

Amor

Não se perde ou se acha
Nas esquinas ou na cama
Na aliança ou na briga
Não se faz ou se destrói
Na igreja ou na rua
Com o olhar ou o toque

Surge do nada e se decide
Se cresce ou morre
Se é eterno ou diz adeus

Ele diz como fazer
Entre o pouco e quase nada
Escolhe o rumo e a forma

Mostra o rumo e a perda
Mata, morre e dá vida
Mescla sangue e saliva

Dá com a mão, tira com o pé
Desdenha quando bem quer
Digere e regurgita

Alerta e esconde
Altera e mantém
Amordaça e grita

O amor é senhor
Ordena sem falar
Omite entre gritos

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quarta-feira, 4 de março de 2009


Around the corner, upload feito originalmente por Little.Snail.

Naquela esquina, você sempre dobra


À direita, e eu, na calçada estreita


Sigo atrás. Mas hoje, foi a tarde


Que dobrou dourada,


Quente de promessas



E eu, ali, sem você, fiquei parada


Na quina de um tormento.


Eu era boneca de pano,


Sem recheio, toda errada,


Porque na rua onde você tudo acha,


Não achei nada



Agora, a noite, que espreguiça


Na ponta crescente da lua,


Vai cair na encruzilhada,


E proteger amantes


Até amanhã cedo



E eu aqui, sem nenhum dinheiro,


Fria de medo,


Com pressa pra lhe fazer um agrado,


Não me acho,


Não sei se fico,


Nem se parto,



Ou se ainda sou a mulher


Que você, para sempre,


Quis sua, só por um dia


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terça-feira, 3 de março de 2009

Abismo simples


Nova Alta Paulista - São Paulo - Brasil, upload feito originalmente por rose gomes.

Nos olhos do gato, o encanto partido
E a espera piscam em silêncio,
Por sono, sexo e sonífero
Que adormeçam essa tristeza sem pranto,
Diminuam a distância desse lado a lado
Cortado pela dívida, pela dúvida
De dois corpos pasmos
Perdidos e com os pés frios de medo,
Dando passos em falso
Nesse abismo que se instala,
Expulsa a mágica, deixa espanto
E entroniza o medo de um futuro sem fala

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Pedra e Flor






Nasceu da dureza
Delicadamente rósea
Nasceu no entre-pedras
Suavemente pétalas
Nasceu sem areia
Fluentemente leve
Nasceu quase pétrea
Etereamente vento
Nasceu uma flor
Rompendo o ar e a sílica.


©Marcos Pontes
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quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

Ave


Ave Solitária, upload feito originalmente por bocavermelha-l.b..


Incrustada na manhã azul

Ave de coração púrpura

Abarca o mundo com as asas

Leva ao ninho cada alma

Acalenta com as penas

O dia que nasce frio

 

Nas plumas negras guarda encanto

E sopra nas narinas diurnas

Sonoros mantras

 

Pelos cantos da cidade

Que amanhece

No tom suave do assum-preto

Aves Marias no bico

 

Das aves marinhas o grito

Os ais de nós

Acordados e em silêncio

Profundo dos olho assustados

Espreitando a manhã

 

O sol nasce

Do ovo do pássaro

Que carrega o dia nas garras

Para depositá-lo suave na noite

 

©Beatriz Mecozzi e Marcos Pontes

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

Ideal Fatal





Se ele a ama “de verdade”
Como dizem e ele também

Não creia
Ser você a beleza mais linda

Você é a amada. Sim
É a rainha

Real sem realeza

Vestida com a fantasia

Virada do avesso

Sem a magia da princesa ideal

Vire-se!

Simples assim




© Compulsão Diaria

sábado, 21 de fevereiro de 2009

Babel Miau


mulher com gato no colo, upload feito originalmente por luarembepe.


Golden quente, o pôr-de-sol

Reflete mostarda,

Faísca mel, yellow soul


Frio é o desamparo

Árduo blue, neste final de tarde

Cool, busco abrigo,

Algum alívio flower

- Cinza rajada -


Na luz prata, ela me consola

Fada. Fate,

Invite me e mia meu destino

No tom


Silver Cat, minha gata vira-lata

Brilha carinhos abertos

On the road, treme

Faz ron-ron, no meu dedo

Finger zelo - bright light


Somos ela e eu, nuas em pelo

Ritual invisível

Spiritual carinho

É dom


Ambas no colo, calmas

Até o final somos,

Too much,

Duas night fellows

Aconchegantes


Santana - Black Magic Woman

©Compulsão Diária

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

Viveu

Vazou dos olhos água morna

Varou a noite chuva grossa

Viveu de costas uma vida

Velou a morte com seu corpo

 

Ardeu na cama entre desejos

Andou descalço sobre vidros

Armou nas trilhas arapucas

Acabou os dias nas cadenas

 

Bebeu do sangue congelado

Bateu de frente no destino

Bailou sem pernas outra valsa

Bisou desgraças dia a dia

 

Mamou do leite sempre frio

Manteve fechadas suas portas

Minou de ódio seus amores

Morreu sozinho de si mesmo.

Matinal

Matinal

Canora manhã

No bico ensolarado

Do pássaro equilibrista

Nos fios de telefone

                Nuvens rastejam

                Espalhando-se entre árvores

                Postes e automóveis

                Imaculado cenário

Da janela do terceiro andar

A paisagem esparramada

Ocupa os olhos dos gatos,

Verdes olhos caçadores

Viajam nas asas do bem-te-vi,

Pousam no ninho desfiado

À caça da cria que pia fome

               Sob o toque quente do sol

              Cerração, penas, serras e gatos

              Acordam e mudam o dia.

Quatro Olhos

 

É rico o olhar seguro

Quatro olhos no mesmo rumo

Quatro pernas na mesma trilha

Vemos atrás do morro.

          Cúmplices entrelaçados

          Siameses do destino

          Não desviamos da rota

          Nos guiamos e seguimos

Nenhum é voto vencido

Há acordo e plano

Rumo decidido a dois

          Nada é de apenas um

          Tudo é tudo de verdade

          Uma gaveta, duas vidas

Chefes

 

É dos que nada dizem

Que se fartam os ouvidos

     Esses que nada falam

     Que perturbam o silêncio

          Os que nada pensam

          Resolvem os males mundanos

               Quem nada vê

               Assume o timão

                    Os que se perderam

                    Comandam a nave

À deriva em mar enrugado

Sem comando vagamos.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

Voraz

Quando a flor encharcada,

Farta de chuva,

Sob as patas dos gatos, espera

          Quando gotas pesadas,

          Túmidas de graça,

          Pousadas na vidraça, escorrem 

                     Quando o sonho,

                     Cheio do cheiro da noite,

                     No torpor da manhã, incauto, desperta

Quando a mulher,

Alva e ampla,

No deserto da cama, dorme e morde a maçã

Ele afaga pétalas, pele e pelúcias.

         Pisa sua dor nas gotas escorridas,

         Desperta delícias lúbricas,

          Liberta, das patas dos gatos, a flor

                        Enquanto desvela o sono da mulher,

                        Despedaça a cama, engole a maçã

                        E flerta, en passant, com a alvorada fatal

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Mix Secret


Freedom
Originally uploaded by Aaron Michael Brown



A noite transpira
Gotas translúcidas
Na pele do quarto
- Janela íntima –
Dos corpos que fervem
O presente dele e dela

E aquecem passos tímidos,
Avançados pra trás,
Entre os verdes-esmeraldas e lembranças
-Mrs Robinson little secret-
De um tempo calmo
Quando os gatos críticos corriam roucos
No calor de assar tijolos e telhas

Ocres e sépias de um passado,
Scarboroug fair quente e bêbado,
Do ópio de amores tépidos
Marcados à contra-luz
Cor de cobre da carne
Acre e doce do agreste

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Arenga



Resolvi lhe dizer
Mas se você nem quiser saber
Eu não lhe falo nada
Deste meu desejo de lhe possuir
De corpo inteiro, amigo

Resolvi não lhe contar
Mas se você quiser ouvir
Então, lhe digo e ainda espalho
Que sou toda sua
E a semana inteira, amado

Imagem : Entrevero, de Carmem Salazar
A artista, numa fantástica intervenção no Trensurb, mostra os vários significados que podem estar contidos dentro de uma só palavra "entrevero": "entre", "ver", "o", e "o over reve o ver".

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Obra

Aos pouquinhos
Peça a peça sobre peças
A forma se faz
De ferro, suor e barro
Rumo à nuvem,
Fincada em solo e concreto.

Aos pedaços encaixáveis
Sobem verticais paredes
E sobem os buracos
Construídos pela ausência
De matéria sólida,
Erguem-se os vãos
Onde antes vão era o todo.

Ocre mosaico
Espera a maquiagem
De pó cinza amalgamado
Pelos calos em forma de mãos
E a cor derradeira
Enfeitando a paisagem
E tampando a visão.

Flama

Fênix de minhas brasas
Renova-se fêmea
Devorada em meu ardor
E salta solta
Garça suave de foco nas asas

Chora a lenha
Para o pouso da ave,
Arvora-se em seu ninho
E ressona leve
Iluminando a madrugada
Com o tição do sexo

Flutua o plasma
Gerado na fricção
Entre as paredes incólumes
De nosso quarto de queimar

Dia

No horizonte da visão
Desanuvia-se a manhã
Virgem dia
Madura vida

No zênite da divisão
A matina velha morre
Dando à sua luz
Tarde em modorra

Na boca gulosa da noite
A tarde suicida-se lenta
Alimentando a escuridão
Com suas muitas luzes

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Vielas

Saber os cheiros e sabores que se espalham pelas ruas e nessas ruas seguir seu cheiro por entre bancas e passantes o rastro invisível que se espalha e confunde disseminando em todas as direções entre elas a que sigo em busca da fonte amarela de minha felicidade que é você com seu perfume e seu cheiro natural e seu olfato e seu tato e todos os demais sentidos até mesmo os desconhecidos ou apenas imaginados e suas costas quando não as toco e seus olhos quando não os vejo vendo o balconista da lanchonete que lhe traz cupuaçu ao leite e queijo coalho aquecido na chapa no meio da tarde tórrida de quase Equador acima de Capricórnio onde todo o zodíaco se cruza pelas ruas à sua frente menos eu que estou às costas no rastro do seu perfume amarelo como o Sol que arde sobre nós dois e os demais signos entrecruzados em nosso astral planificado nas ruas tortas como tortas são minha intenções de não perdê-la e não deixá-la escapar pelas vielas com sorvete na mão e sombrinha sobre os cabelos amarelos rescendentes a andiroba das praças sombreadas e guaraná do outro lado do país sobre o qual seus pés passeiam ou desfilam sendo seus passos nas vielas tortas como desfile de diva em tapetes vermelhos como as pétalas espalhadas por sob as copas que sombreiam as praças de onde vemos a papelaria escondida atrás das calçadas largas onde se arrastam no calor de arianos a piscianos e os demais chineses ou quaisquer que sejam os horóscopos que hão de teimar em nossa união mesmo que haja quem torça e aja contra o que não ocorrerá como não ocorrerá o fim dos tempos que os tempos não seguem a lógica dos relógios que teimam em fazer do tempo animal aprisionável e não somos separáveis já que somos prisioneiros de nós dois em dulcíssima cadena que se espalha pelas vielas ou avenidas ou praças ou calçadas calcadas em nossas solas que passeiam as minhas seguindo as suas por onde quer que elas vão e elas vão de lá para cá e de cá para mais aqui e daqui não partem depois de fazerem desse solo sua cidade como se nunca houvera o tempo de ter sido outra.

Guantánamo de uma tarde


Give Blood
Originally uploaded by Chris Brookes

Estrada longa, acidentada.
Poeira quente e as mucosas ardem.
Era tão necessário chegar, mudar tudo:
Agora, na lágrima presa,
Até o pensamento, congela.


Andar, apesar
Do medo, do estranhamento,
Do amor que, num repente, gora
Do olhar que se fragmenta.

E no silêncio de uma espera,
Pela porta de ferro, batida
Depois imóvel,
Um grito é partido ao meio,
Como se fosse sem querer,
Cortá-lo inteiro

E entre a escada e o muro,
- Guantánamo de uma tarde-
Grades! É proibido reclamar.
A liberdade pra tudo ser,
Antes de já, espera.

É preciso poder gritar.
Não é possível mais um erro
Será?

Duo Finito


Separation
Originally uploaded by Pensiero

Mal me viu
Eu te amei

Cheguei
Gostou

Chamei
Ficou

Gritei
Calou

Crispei
Rosnou em voz baixa

Tua boca, teus dedos
Tua pele, tuas pernas
Todo teu corpo
Deixou o meu
Acabou

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Toque


touch of pink, originally uploaded by framajo.

Tarde de lua nascida cedo

Meu olho cresce

Espera e roça

Tua pele no meu rastro

Veludo no céu azul marinho noite

Seda leve que ceda e amanhece

Cálida

Cronos Corte



Cortei o cabelo a navalha
Agora, minha história desfiada
Vê-se nua em pelo, no fio das horas,
Toda ela na minha cara
Explode meu perfil em camadas

Inteira, entalhada na fresta do presente,
Minha história é rua larga,
Via de mão dupla sem calçada

E cada passagem, cada camada
Passadas
Cabem no meio fio da face

A última década enrolada,
Pesa camuflada no batom desejo coral
Cobra pronta, aninhada no musgo do tempo,
No verde do muro e no côncavo da boca.
Cobra criada pra dar bote e beijo
Nos pés de um futuro que lateja


Música: Autumn Leaves / Cannonball Adderley with Miles Davis

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Ícaro Anda

Cego céu à frente
Pisa forte o lajedo
Pés na pedra e olho longe

A estrada é curva e longa
De desvios, pontes e aclives,
Descidas, pinguelas e túneis
Passa-se tudo passo a passo

Querer ver do alto a rota
É sonho de Ícaro plantado,
É vôo impossível nesse éter
Desejo que o chão atrai, não plana

Céu e solo se confundem
Na distância que a vida perde
E o sabor da poeira que fica
Dá o gosto de viver seguindo

Rocha

Rocha de pozinhos
Sólida perde pedras
Arrasta-se rolando
Deixa rastro e marcas

Rocha de pedrinhas
Dura perde pó
Na aspereza do contato
Com outras menos nobres

Rocha de pó e pedra
Esculpida não desgasta
Ganha forma, vira jóia,
Mostra a gema camuflada

No oco do granito
Surge a ponta de carbono
Brilho de forma bruta
Que a vida lapidará

Surge do calhau disforme
A duras penas e suor
Brilhante aliança eterna
Que nada há de quebrar.

Um gole de tinto


Minha boca se enche
Do cheiro da tua
E entre as peles,
A lua cheia vela, cálida
Minhas pétalas nas tuas carnes
Que desabrocham leves e tenras
Mas fingem dormir nas tuas têmporas,
Para depois murcharem mornas
Nas caves de nossos sonhos tintos

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Lua na Madrugada

Entra sem timidez pela teia
Que limita a janela
Espalha-se amarela
Por sobre a cama que dorme
Ofusca o sono dos amantes
E os desperta na madrugada morna e quieta

Quietude e calor que somem
Ante o rasgo brilhante
Que vem do céu sobre lençóis
Atravessa a carne
Ebule os sangues
E ferve as carnes

Acaba um dia não no sono
Mas na madrugada alta
Que fecha o ciclo e abre as pernas
Que fecha a noite e abra a manhã
Que erige o corpo e afoga o macho

Celeritas



Te leio, luz no vácuo
Te quero constante
Sentimento em velocidade
Te espero, segredo atômico
Entre ondas sonoras
É saudade

Compulsão Diária, agosto de 2008

A distância entre as estrelas é muito grande. Professores de matemática e física explicaram que essa distância é medida através de equações. Então, resumindo, resolvi assim: E=mc2: Encantamento é igual a magia vezes celeritas ao quadrado e A=ic2: Arte é igual a imaginação vezes a velocidade da luz ao quadrado. Será que entendi?

Imagem: Fuerzabruta, De La Guarda, Daryl Roth Theater, NY, outubro de 2007

Fuerzabruta é um grupo de performers argentinos que ilustra o poema.

Pontyana



É o sol dentro de mim
No céu, o vermelho
Carne do corpo e das coisas
Sentinela do sensível,
Parto do ser bruto e do espírito selvagem,
É o visível dentro do invisível.
A escrita quebra o silêncio,
O pensamento interroga o impensado
E a cada plenitude, um vazio
No tapete tecido pela linguagem

Compulsão Diária, setembro de 2008 sobre a obra

Imagem: Barnett Newman - Vir Heroicus Sublimis - 1950, Museum of Modern Art, NY


Diante do nascer do sol, penso na leitura de O visível e o invisível, de Merleau-Ponty.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Antes, depois, agora e sempre



Eu sempre te quis
Antes de saber de mim
Das coisas minhas que tenho em ti

Essa ternura em carne viva
Do teu coração onde minha lua gira
Na tua sorte que me pega e convida

Para que minhas manhãs comecem nas tuas
E as tardes tuas e minhas
Caiam em nossa noite única

Eu sempre te quis
Depois de saber de ti,
Das coisas tuas que tens em mim

Esse desejo de amor de alma
Do meu corpo onde tua pele fica
Na minha sina que te segue e avisa

É teu meu presente que chega
Na rua da casa da tua esquina
Que fizemos minha e tua

Eu te quero agora
Mais ainda, por saber nossas
As coisas de cada um

Eu te quero sempre meu
Para que me faças tua
Sem deixar de sermos dois

Compulsão Diária, outubro de 2008

Aurora noir(e)

Entre as telhas, sereno
Jaz um resto de esconde-esconde
Que brinca de decifrar armadilhas primevas.
É quebra-cabeça impreciso que rói
A parede da noite de uma criança

As sombras são leões com jubas de folhas
Nos olhos de espanto azul franzido
O prazer da fera em plena fuga é ele.
Rei à espera na rede do terraço ancestral
A presença da sua ausência é caos

Na areia da vanguarda, vacas mansas flertam
Com seus heróis pescadores que espantam
As gaivotas vorazes do pensamento.
À luz da estrela da manhã, o primeiro cigarro
Aura noir(e) no alvorecer

Ela avança lãs enroladas nos tornozelos
A cabeça levemente inclinada para esquerda
Nas mãos o calor do café acorda a dúvida.
Não sabe o que mais teme ou deseja ser
Tentou ficar muito quieta



Compulsão Diária, novembro de 2008

Olhos vagos


Time of turbulence !
Originally uploaded by framajo.


Imóveis na tristeza,
Os olhos fingem
Interesses em negros vôos

Na pista de sua loucura
Decolam devaneios,
Vagos pesadelos
São levados na lava de sua melancolia

Alheio a tudo, colado no vazio
Ele descansa
Em duas mulheres:
Sua mãe e sua filha,
Sua serva e sua sina,
Cansadas e constrangidas
Bóiam no olhar dele
Mergulhado em pleno nada,

Não pode,
Não quer e não vê
A morte, nem a vida
 Tom Waits and Crystal Gayle - I Beg Your Pardon

domingo, 1 de fevereiro de 2009

Vem

Vem todo comprazer
Sobre cada poro
Ser meu
Céu na pele

Vem quando eu menos quiser
E você mais transgredir

Vem, entra, sobra e forra
Meus pêlos com seus milagres,
Na roça dos seus cílios,
Faz minhas delícias vibrarem


Vem e pisca na minha língua,
Com sua voz rouca
Devassa meu peito


Depois, abre a trilha
Com seu sopro
Abraça minha lira, acha,
Vê nós dois na ponta da linha

E vai