O véu
Vibrante ar
Céu
Bate
Surdo Tambor
Vate
Abrigo
Sólido teto
Trigo
Pão e álcool
Dieta completa
Lar
Cercado
Ilha casada
Par
Bichinhos
Lençóis e casal
Ninho
O véu
Vibrante ar
Céu
Bate
Surdo Tambor
Vate
Abrigo
Sólido teto
Trigo
Pão e álcool
Dieta completa
Lar
Cercado
Ilha casada
Par
Bichinhos
Lençóis e casal
Ninho
De preto, cinza ou cor
Lanha o branco em arabescos
Latinismos, rimas e solturas
Divide o horizonte em antes e o que vem
Dá forma, desenforma, deforma
Informa que o pão é quente e cheira
A água soa na calha, queda, esparrama
O lanho escuro na folha alva
Arcos e retas, ruídos ecoam no crânio
E gritam ao papel.
Saem linhas, versos, encontros de cifras
Mais um poeta se faz do nada
Do quase nada de página e lápis.
Na concha da mão
Faço uma lagoa
Na falta da lagoa mesma
Da bunda brilhante do vaga-lume
Faço Lua cheia e amarela
Na ausência amarela da Lua
Crio minha noite de Lua cheia
E miro no reflexo dela em minha lagoa
Refletindo amarela no teto escuro
O teto negro vira firmamento
Com Lua de bunda de pirilampo
Clareando o soturno quarto cerrado
©Marcos Pontes
Sentidos
Não há esforço além dos brônquios
A vida é leve como a lufada
Que sai do peito e sobe quente
A vida sobe quente
Respira a vida que sobe
Tato além das mãos
Que tocam as paredes macias
Cercas macias delimitam o tato
A vida é tato macio
A vida tateia e se limita
Não há sons além das orelhas
Onde reverberam as músicas diárias
Diuturna trilha de gritos, sussurros
E ruídos de cordas e couro
Vida é música áspera
Passo a língua na língua da vida
Sinto a saliva seca
Sabor de mim na saliva da vida
Vida é sabor de si e mim
Nas papilas que se saboreiam
Olho longe e vejo a curva
Vejo além da curva e do morro
É viela sinuosa
A vida é via de só ida
Larga, estreita reta e curva
Não há outro cheiro
Tudo cheira a vida que queira
Cheiro de vida mesma
A vida tem cheiro de tudo
Quando acaba o cheiro...
©Marcos Pontes
Vem seguindo trilhas negras
De betume e roxas de terra
Vermelhas de piçarra e sangue
Vida a dentro, casa a fora
Pernas e braços no mundo
Que percorre e abraça
Deixa amores
Traz texturas, temores
Seca humores e agruras
Deixa vidas, cria outras
Vara o país com rumo
Incerto e desejado norte
Guardando o Norte em seu cofre
Peito sem saída
Acumula o mundo
Ensina de onde vem
Aprende pra onde vem
Ciclo
O horizonte no fim do asfalto
Outra linha atrás
Meta à frente dos olhos
Na vontade do retorno
Meta é ponto de partida
Vai-se para voltar melhor
Ciclo
©Marcos Pontes
Não existe caminho fora daqui
Mesmo que seja um espiral
Voltado para o umbigo
Volta-se em torno de si
Curvilinha bumerangue que só volta
Arremessada contra a própria
E em si se cruza
Bifurcação da mesma linha
Não há caminho dentro daqui
O externo é o interior e é o mesmo
Caixa cheia da própria caixa
Vazia da caixa mesma
A vida e a caixa
A vida pulsa na caixa
Os caminhos da vida
São a própria caixa
A duração da caixa é a vida
Simbiose abstrata
Não há caixa fora daqui
Encerrada na vida e na caixa
As soluções e os caminhos
Bifurcações que retornam à vida
Dentro da caixa
Cíclica e espiralada linha
A linha bumerangue
Ricocheteia nas paredes da vida
Cai no piso da caixa
Sobre as soluções catadas
Cacos juntinhos, mosaico
De vida, caminhos, vida e caixa
Espiral
Não existe caminho fora daqui
Mesmo que seja um espiral
Voltado para o umbigo
Volta-se em torno de si
Curvilinha bumerangue que só volta
Arremessada contra si
E em si se cruza
Bifurcação da mesma linha
Não há caminho dentro daqui
O externo e o interior é o mesmo
Caixa chia da própria caixa
Vazia da caixa mesma
A vida e a caixa
A vida pulsa na caixa
Os caminhos da vida
São a própria caixa
A duração da caixa é a vida
Simbiose abstrata
Não há caixa fora daqui
Encerrada na vida e na caixa
A soluções e os caminhos
Bifurcações que retornam à vida
Dentro da caixa
Cíclica e espiralada linha
A linha bumerangue
Rechicoteia nas paredes da vida
Cai no piso da caixa
Sobre as soluções catadas
Cacos juntinhos, mosaico
De vida, caminhos, vida e caixa
©Marcos Pontes



Daqui escutei
quando eles
chegaram rindo
e correndo
entraram
na sala
e logo
invadiram também
o escritório
(onde eu trabalhava)
num alvoroço
e rindo e correndo
se foram
com sua alegria
se foram
Só então
me perguntei
por que
não lhes dera
maior
atenção
se há tantos
e tantos
anos
não os via crianças
já que
agora
estão os três
com mais
de trinta anos.

Antes do Nome, Adélia Prado
Não me importa a palavra, esta corriqueira.
Quero é o esplêndido caos de onde emerge a sintaxe,
os sítios escuros onde nasce o “de”, o “aliás”,
o “o”, o “porém” e o “que”, esta incompreensível
muleta que me apóia.
Quem entender a linguagem entende Deus
cujo Filho é Verbo. Morre quem entender.
A palavra é disfarce de uma coisa mais grave, surda-muda,
foi inventada para ser calada.
Em momentos de graça, infreqüentíssimos,
se poderá apanhá-la: um peixe vivo com a mão.
Puro susto e terror.




O raio divide o azul
Que se acinzenta num repente
Plúmbeo firmamento úmido
Que se desfaz
Os tambores de Poseidon
Ecoam em prédios e nuvens
Labirinto luminoso que desce
Driblando as gotas
Éolo esvazia os pulmões
Levantando saias e telhas
Arremessa o pássaro em novo rumo
Nada mais voa
Despenca e corre em rios
A sujeira do ar
Pinga líquida e lava o solo
Encharcado e feliz
©Marcos Pontes
Na sombra paralela
Ela caminha soturna
Lépida, silenciosa
E corta pronto
Aguardada
Desejada e alívio;
Surpresa,
Dor e lágrimas.
Não seleciona,
Como enxurrada
Arrasta a todos
Cedo ou mais cedo
Tudo se resume ao segundo
Ao instante final
Onde cessa a dor e o riso
O suor e a saliva
O sonho e a vida
Tudo para, mesmo os olhos
Só os pelos persistem
O que foi nada deixa
O cubículo e as cinzas
O suspiro e a quietude
O choro e as rezas
O tempo e o sempre
A presença e o nada
O depois incerto
O talvez do talvez
Vejo desejo
Alto nas terras coloridas da hacienda
Mãos de mulher rasgam a terra
A sacada sementeira
Cresce para dentro do domínio
Pátio-mandala e jardim
Paraíso no umbigo da casa
Tom de água, reflexos nas paredes
Azulejos mouriscos, ocres, pimentas
Cactos
Frida Kahlo passeia entre flores
Gatos
Fazem e destroem obstáculos
Respingos nas calhas,
Brilhos de lua e chuva
Espalhados nos becos
Regam samambaias, roseiras
Lavam amores dos espinhos
Fazem macios os seixos brancos
Fantasmas entre as alas
Por navalha de grafite
A página lanhada
Se enfeita de signos
Nasce na brancura
Emaranhado de traços sonoros
Flui o tráfego de linhas
Em esquinas sequenciais
letras paridas do negro
Ruas e esquinas da língua
Entrelaçadas em sons
No silêncio do papel
O lápis grita
Ecoa em si mesmo
Vomita
Prosa, poesia ou bula
Gráficos lineares
Curvas e segmentos retos
Formam o nome de tudo
E do vazio
Escrevem
©Marcos Pontes