
Fim de tarde
Compulsão Diaria

Daqui escutei
quando eles
chegaram rindo
e correndo
entraram
na sala
e logo
invadiram também
o escritório
(onde eu trabalhava)
num alvoroço
e rindo e correndo
se foram
com sua alegria
se foram
Só então
me perguntei
por que
não lhes dera
maior
atenção
se há tantos
e tantos
anos
não os via crianças
já que
agora
estão os três
com mais
de trinta anos.
Antes do Nome, Adélia Prado
Não me importa a palavra, esta corriqueira.
Quero é o esplêndido caos de onde emerge a sintaxe,
os sítios escuros onde nasce o “de”, o “aliás”,
o “o”, o “porém” e o “que”, esta incompreensível
muleta que me apóia.
Quem entender a linguagem entende Deus
cujo Filho é Verbo. Morre quem entender.
A palavra é disfarce de uma coisa mais grave, surda-muda,
foi inventada para ser calada.
Em momentos de graça, infreqüentíssimos,
se poderá apanhá-la: um peixe vivo com a mão.
Puro susto e terror.
O raio divide o azul
Que se acinzenta num repente
Plúmbeo firmamento úmido
Que se desfaz
Os tambores de Poseidon
Ecoam em prédios e nuvens
Labirinto luminoso que desce
Driblando as gotas
Éolo esvazia os pulmões
Levantando saias e telhas
Arremessa o pássaro em novo rumo
Nada mais voa
Despenca e corre em rios
A sujeira do ar
Pinga líquida e lava o solo
Encharcado e feliz
©Marcos Pontes
Na sombra paralela
Ela caminha soturna
Lépida, silenciosa
E corta pronto
Aguardada
Desejada e alívio;
Surpresa,
Dor e lágrimas.
Não seleciona,
Como enxurrada
Arrasta a todos
Cedo ou mais cedo
Tudo se resume ao segundo
Ao instante final
Onde cessa a dor e o riso
O suor e a saliva
O sonho e a vida
Tudo para, mesmo os olhos
Só os pelos persistem
O que foi nada deixa
O cubículo e as cinzas
O suspiro e a quietude
O choro e as rezas
O tempo e o sempre
A presença e o nada
O depois incerto
O talvez do talvez