
Nasceu da dureza
Delicadamente rósea
Nasceu no entre-pedras
Suavemente pétalas
Nasceu sem areia
Fluentemente leve
Nasceu quase pétrea
Etereamente vento
Nasceu uma flor
Rompendo o ar e a sílica.
©Marcos Pontes
Incrustada na manhã azul
Ave de coração púrpura
Abarca o mundo com as asas
Leva ao ninho cada alma
Acalenta com as penas
O dia que nasce frio
Nas plumas negras guarda encanto
E sopra nas narinas diurnas
Sonoros mantras
Pelos cantos da cidade
Que amanhece
No tom suave do assum-preto
Aves Marias no bico
Das aves marinhas o grito
Os ais de nós
Acordados e em silêncio
Profundo dos olho assustados
Espreitando a manhã
O sol nasce
Do ovo do pássaro
Que carrega o dia nas garras
Para depositá-lo suave na noite
©Beatriz Mecozzi e Marcos Pontes
Golden quente, o pôr-de-sol
Reflete mostarda,
Faísca mel, yellow soul
Frio é o desamparo
Árduo blue, neste final de tarde
Cool, busco abrigo,
Algum alívio flower
- Cinza rajada -
Na luz prata, ela me consola
Fada. Fate,
Invite me e mia meu destino
No tom
Silver Cat, minha gata vira-lata
Brilha carinhos abertos
On the road, treme
Faz ron-ron, no meu dedo
Finger zelo - bright light
Somos ela e eu, nuas em pelo
Ritual invisível
Spiritual carinho
É dom
Ambas no colo, calmas
Até o final somos,
Too much,
Duas night fellows
Aconchegantes
©Compulsão Diária
Vazou dos olhos água morna
Varou a noite chuva grossa
Viveu de costas uma vida
Velou a morte com seu corpo
Ardeu na cama entre desejos
Andou descalço sobre vidros
Armou nas trilhas arapucas
Acabou os dias nas cadenas
Bebeu do sangue congelado
Bateu de frente no destino
Bailou sem pernas outra valsa
Bisou desgraças dia a dia
Mamou do leite sempre frio
Manteve fechadas suas portas
Minou de ódio seus amores
Morreu sozinho de si mesmo.
Matinal
Canora manhã
No bico ensolarado
Do pássaro equilibrista
Nos fios de telefone
Nuvens rastejam
Espalhando-se entre árvores
Postes e automóveis
Imaculado cenário
Da janela do terceiro andar
A paisagem esparramada
Ocupa os olhos dos gatos,
Verdes olhos caçadores
Viajam nas asas do bem-te-vi,
Pousam no ninho desfiado
À caça da cria que pia fome
Sob o toque quente do sol
Cerração, penas, serras e gatos
Acordam e mudam o dia.
É rico o olhar seguro
Quatro olhos no mesmo rumo
Quatro pernas na mesma trilha
Vemos atrás do morro.
Cúmplices entrelaçados
Siameses do destino
Não desviamos da rota
Nos guiamos e seguimos
Nenhum é voto vencido
Há acordo e plano
Rumo decidido a dois
Nada é de apenas um
Tudo é tudo de verdade
Uma gaveta, duas vidas
É dos que nada dizem
Que se fartam os ouvidos
Esses que nada falam
Que perturbam o silêncio
Os que nada pensam
Resolvem os males mundanos
Quem nada vê
Assume o timão
Os que se perderam
Comandam a nave
À deriva em mar enrugado
Sem comando vagamos.
Voraz
Quando a flor encharcada,
Farta de chuva,
Sob as patas dos gatos, espera
Quando gotas pesadas,
Túmidas de graça,
Pousadas na vidraça, escorrem
Quando o sonho,
Cheio do cheiro da noite,
No torpor da manhã, incauto, desperta
Quando a mulher,
Alva e ampla,
No deserto da cama, dorme e morde a maçã
Ele afaga pétalas, pele e pelúcias.
Pisa sua dor nas gotas escorridas,
Desperta delícias lúbricas,
Liberta, das patas dos gatos, a flor
Enquanto desvela o sono da mulher,
Despedaça a cama, engole a maçã
E flerta, en passant, com a alvorada fatal
Estrada longa, acidentada.
Poeira quente e as mucosas ardem.
Era tão necessário chegar, mudar tudo:
Agora, na lágrima presa,
Até o pensamento, congela.
Andar, apesar
Do medo, do estranhamento,
Do amor que, num repente, gora
Do olhar que se fragmenta.
E no silêncio de uma espera,
Pela porta de ferro, batida
Depois imóvel,
Um grito é partido ao meio,
Como se fosse sem querer,
Cortá-lo inteiro
E entre a escada e o muro,
- Guantánamo de uma tarde-
Grades! É proibido reclamar.
A liberdade pra tudo ser,
Antes de já, espera.
É preciso poder gritar.
Não é possível mais um erro
Será?
Mal me viu
Eu te amei
Cheguei
Gostou
Chamei
Ficou
Gritei
Calou
Crispei
Rosnou em voz baixa
Tua boca, teus dedos
Tua pele, tuas pernas
Todo teu corpo
Deixou o meu
Acabou
Tarde de lua nascida cedo
Meu olho cresce
Espera e roça
Tua pele no meu rastro
Veludo no céu azul marinho noite
Seda leve que ceda e amanhece
Cálida